sábado, 25 de fevereiro de 2012
Os Dons das Fadas - Baudelaire
Realizava-se a grande reunião das fadas, a fim de
procederem à partilha dos dons entre todos os recém-nascidos das últimas
vinte e quatro horas.
Muito diferiam umas das outras, todas essas antigas e
fantasistas Irmãs do Destino, todas essas Mães estranhas da alegria e
da dor: umas tinham aparência sombria e rebarbativa, outras a tinham
folgazã e maliciosa; umas eram jovens, e sempre o haviam sido, outras
eram velhas, e também sempre o haviam sido.
Todos os pais que acreditam nas Fadas haviam comparecido, cada qual trazendo nos braços o seu recém-nascido.
Os Dons, as Faculdades, os Bons Acasos, as
Circunstâncias Invencíveis, estavam amontoados ao lado do Tribunal, como
os prêmios sobre o tablado, em dia de distribuição de prêmios. O que
havia de particular no caso é que os Dons não eram a recompensa de um
esforço, mas pelo contrário, uma graça concedida àquele que ainda não
vivera, uma graça capaz de determinar seu destino e de se tornar tanto a
origem de seu desdita, quanto de sua felicidade.
As pobres Fadas estavam sobrecarregadas de trabalho,
porque era grande o número dos solicitantes, e o mundo intermediário
colocado entre o homem e Deus está submetido, tanto quanto nós, à lei
terrível do Tempo e de sua infinita posteridade, os Dias, as Horas, os
Minutos, os Segundos.
Na realidade, elas estavam tão atordoadas quanto
ministros em dia de audiência, ou empregados do Estabelecimento de
Penhores, quando um dia de festa nacional autoriza as restituições sem
pagamento. Acho mesmo que olhavam, de vez em quando, para o ponteiro do
relógio, com impaciência igual à de juizes humanos que, por estarem em
função desde cedo, não podem deixar de sonhar com o jantar, a família e
os queridos chinelos. Se, na justiça sobrenatural, há um pouco de
precipitação e de acaso, não nos admiremos que o mesmo aconteça às vezes
na justiça humana. Nós mesmos seríamos, em tal caso, juizes injustos.
Dessarte foram cometidas, nesse dia, algumas tolices –
que poderíamos estranhar, se a prudência, e não a fantasia, fosse a
característica peculiar, eterna, das Fadas.
Assim o poder de atrair magneticamente a fortuna foi
concedido ao único herdeiro de uma família riquíssima que, não possuindo
noção alguma de caridade, como também nenhuma cobiça dos bens visíveis
da terra, devia encontrar-se, mais tarde, grandemente atrapalhado com
seus milhões.
Assim foram concedidos o amor ao Belo e a Força
Poética ao filho de um triste pobretão, um cavoqueiro absolutamente
incapaz quer de favorecer os dotes, quer de prover às necessidades de
sua lamentável progênie.
Esquecia-me de lhes dizer que a distribuição, em tais casos solenes, não comporta apelação, e que nenhum dom pode ser recusado…
Todas as Fadas já se estavam levantando, julgando
concluída sua tarefa, porque não restava mais presente algum,
munificência alguma para atirar a toda aquela nulidade humana, quando um
bom homem, um pobre e modesto negociante, creio eu, ergueu-se e,
agarrando por sua veste de vapores policrômicos a Fada que lhe ficava
mais próxima, exclamou:
- Oh! Senhora! está-nos esquecendo! Ainda falta meu pequeno! Não quero ficar sem receber coisa alguma!
A Fada deveria ficar perplexa, porque não restava mais nada.
Todavia, lembrou-se ela a tempo de uma lei bastante
conhecida, embora raramente aplicada, no mundo sobrenatural, habitado
pelas deidades etéreas, amigas do homem, e muitas vezes forçadas a se
adaptarem às suas paixões, tais como as Fadas, os Gnomos, as
Salamandras, as Sílfides, os Silfos, os Nixos, os Ondinos e as Ondinas, –
quero referir-me à lei que concede às Fadas, em semelhante caso, isto
é, no caso de os presentes se acabarem, a faculdade de concederem mais
um, suplementar e excepcional, sob condição, todavia, de ela possuir
imaginação bastante para criá-lo imediatamente.
Por isso a boa Fada respondeu, com uma segurança digna de sua situação:
- Dou a teu filho… dou-lhe… o Dom de agradar!
- Mas agradar como? agradar? por que agradar? – perguntou teimosamente o pequeno comerciante, que sem dúvida era um desses raciocinadores tão comuns, incapazes de se elevarem até a lógica do absurdo.
- Porque sim! porque sim! – replicou a Fada, colérica, voltando-lhe as costas; e, reunindo-se ao cortejo de suas companheiras, dizia-lhes:
- Que acham desse francesinho vaidoso que tudo quer compreender e que, havendo obtido para o filho o melhor quinhão, ainda ousa interrogar e discutir o indiscutível?
Charles Baudelaire
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