sábado, 25 de fevereiro de 2012


"Há que sevilhizar a vida . Há que sevilhizar o mundo."
J.C. de Melo Neto

Os Dons das Fadas - Baudelaire

Realizava-se a grande reunião das fadas, a fim de procederem à partilha dos dons entre todos os recém-nascidos das últimas vinte e quatro horas.

Muito diferiam umas das outras, todas essas antigas e fantasistas Irmãs do Destino, todas essas Mães estranhas da alegria e da dor: umas tinham aparência sombria e rebarbativa, outras a tinham folgazã e maliciosa; umas eram jovens, e sempre o haviam sido, outras eram velhas, e também sempre o haviam sido.

Todos os pais que acreditam nas Fadas haviam comparecido, cada qual trazendo nos braços o seu recém-nascido.

Os Dons, as Faculdades, os Bons Acasos, as Circunstâncias Invencíveis, estavam amontoados ao lado do Tribunal, como os prêmios sobre o tablado, em dia de distribuição de prêmios. O que havia de particular no caso é que os Dons não eram a recompensa de um esforço, mas pelo contrário, uma graça concedida àquele que ainda não vivera, uma graça capaz de determinar seu destino e de se tornar tanto a origem de seu desdita, quanto de sua felicidade.

As pobres Fadas estavam sobrecarregadas de trabalho, porque era grande o número dos solicitantes, e o mundo intermediário colocado entre o homem e Deus está submetido, tanto quanto nós, à lei terrível do Tempo e de sua infinita posteridade, os Dias, as Horas, os Minutos, os Segundos.

Na realidade, elas estavam tão atordoadas quanto ministros em dia de audiência, ou empregados do Estabelecimento de Penhores, quando um dia de festa nacional autoriza as restituições sem pagamento. Acho mesmo que olhavam, de vez em quando, para o ponteiro do relógio, com impaciência igual à de juizes humanos que, por estarem em função desde cedo, não podem deixar de sonhar com o jantar, a família e os queridos chinelos. Se, na justiça sobrenatural, há um pouco de precipitação e de acaso, não nos admiremos que o mesmo aconteça às vezes na justiça humana. Nós mesmos seríamos, em tal caso, juizes injustos.

Dessarte foram cometidas, nesse dia, algumas tolices – que poderíamos estranhar, se a prudência, e não a fantasia, fosse a característica peculiar, eterna, das Fadas.

Assim o poder de atrair magneticamente a fortuna foi concedido ao único herdeiro de uma família riquíssima que, não possuindo noção alguma de caridade, como também nenhuma cobiça dos bens visíveis da terra, devia encontrar-se, mais tarde, grandemente atrapalhado com seus milhões.

Assim foram concedidos o amor ao Belo e a Força Poética ao filho de um triste pobretão, um cavoqueiro absolutamente incapaz quer de favorecer os dotes, quer de prover às necessidades de sua lamentável progênie.

Esquecia-me de lhes dizer que a distribuição, em tais casos solenes, não comporta apelação, e que nenhum dom pode ser recusado…

Todas as Fadas já se estavam levantando, julgando concluída sua tarefa, porque não restava mais presente algum, munificência alguma para atirar a toda aquela nulidade humana, quando um bom homem, um pobre e modesto negociante, creio eu, ergueu-se e, agarrando por sua veste de vapores policrômicos a Fada que lhe ficava mais próxima, exclamou:

- Oh! Senhora! está-nos esquecendo! Ainda falta meu pequeno! Não quero ficar sem receber coisa alguma!

A Fada deveria ficar perplexa, porque não restava mais nada.

Todavia, lembrou-se ela a tempo de uma lei bastante conhecida, embora raramente aplicada, no mundo sobrenatural, habitado pelas deidades etéreas, amigas do homem, e muitas vezes forçadas a se adaptarem às suas paixões, tais como as Fadas, os Gnomos, as Salamandras, as Sílfides, os Silfos, os Nixos, os Ondinos e as Ondinas, – quero referir-me à lei que concede às Fadas, em semelhante caso, isto é, no caso de os presentes se acabarem, a faculdade de concederem mais um, suplementar e excepcional, sob condição, todavia, de ela possuir imaginação bastante para criá-lo imediatamente.

Por isso a boa Fada respondeu, com uma segurança digna de sua situação:

- Dou a teu filho… dou-lhe… o Dom de agradar!

- Mas agradar como? agradar? por que agradar? – perguntou teimosamente o pequeno comerciante, que sem dúvida era um desses raciocinadores tão comuns, incapazes de se elevarem até a lógica do absurdo.

- Porque sim! porque sim! – replicou a Fada, colérica, voltando-lhe as costas; e, reunindo-se ao cortejo de suas companheiras, dizia-lhes:

- Que acham desse francesinho vaidoso que tudo quer compreender e que, havendo obtido para o filho o melhor quinhão, ainda ousa interrogar e discutir o indiscutível?
 
Charles Baudelaire

terça-feira, 10 de agosto de 2010

A ti, meu-por-toda-a-vida... e além dela... e antes dela... e sempre!





"O REENCONTRO DE DUAS PESSOAS EXALA SIMPLESMENTE O SABOR DA PAIXÃO E DO DESEJO DE UM IR AO ENCONTRO DO OUTRO. ESTAR SEM VOCÊ É COMO ABRAÇAR AS DORES DO MUNDO, POIS SÓ A TEU LADO ME SINTO SEGURO"

No tablado dos teus sonhos quero dançar. Quero ser tua música. Pra te ter em contato com a pele e a alma... Te lembras? Um dia, você me perguntou, entre sorrisos e devaneios: "Você acredita que, quando duas almas tem que se encontrar e ficar juntas, elas ficam? Independente dos tempos, e do que aconteça, mesmo que a morte separe?"... E eu senti um arrepio, e respondi sem medo: "Sim, eu sempre acreditei. Pois se assim não fosse, de que adiantaria a vida?"... E hoje me lembro disso, e sei o quanto você tinha razão. Me apego a isso para viver, para buscar a minha felicidade, acreditando que, nessa vida, nada é à toa... Lembra quando eu te disse: "Você encheu meu céu de estrelas... Trouxe a lua pra minha vida"? Repito isso hoje e sempre, e sei que, onde você está, você ouve, e sorri. Como eu sorrio aqui e adormeço, na esperança de sonhar com você. Te amo, sempre. 

"Se a tua alma sempre me seguiu, a minha sempre te esperou. Se a tua alma sempre me acolheu, a minha sempre te amparou. Se a tua alma sempre me sorriu, a minha sempre te abraçou. Se a tua alma sempre me sonhou, a minha alma sempre, sempre te amou! Alma gêmea da minha que sempre me pressente e sempre me adivinha... Todos os dias te amo mais, sempre mais, cada vez mais!"


" Hoje, de algum lugar longe destas terras,há um doce olhar só para você, um olhar especial,
de alguém especial, de distante origens ,
um olhar de um justo coração que pulsa só a vida.
Que sorri por que ama plenamente 

Sem julgamentos, preconceitos, nem prisões.
Hoje como ontem, longe destes céus,
há um encantador olhar só para você
e nesse olhar vai para você a magia da luz,
a simplicidade do perdão, a força para comungar
com a vida, a esperança de dias mais radiantes de paz.

Hoje de algum lugar dentro de você,
alguém que já o amou muito e ainda o ama,
diz pra você que valeu a pena ter estado nestas terras, sob estes céus,
falando de união, paz, amor e perdão.

Poder sentir a força que faz você sorrir
e continuar o caminho
que um dia aquele doce olhar iniciou pra você.
Tudo isso só para você saber que a vida continua e a morte é uma viagem."



"Alma gêmea de minha alma
Flor de luz de minha vida
Sublime estrela caída
Das belezas da amplidão .

Quando eu errava no mundo
Triste e só, no meu caminho ,
Chegaste, devagarinho ,
E encheste-me o coração.


Vinhas na benção das flores
Da divina claridade ,
Tecer-me a felicidade
Em sorrisos de esplendor !

És meu tesouro infinito .
Juro-te eterna aliança
Porque sou tua esperança ,
Como és todo meu amor !

Alma gêmea de minha alma
Se eu te perder algum dia...
Serei tua escura agonia ,
Da saudade nos seus véus...

Se um dia me abandonares
Luz terna dos meus amores,
Hei de esperar-te , entre as flores
Da claridade dos céus ."


Onde você estiver, meu anjo... Sempre te amarei. 


"Estou partindo, meu amado, na arca do espírito, mas voltarei a este mundo, pois a grande Ishtar trará de volta as almas dos namorados que partirem para a eternidade antes de gozarem a doçura do amor e a ventura da juventude." Khalil Gibran, "Cinzas dos Tempos "


sábado, 17 de julho de 2010

"Cinzas dos Tempos" - conto de KHALIL GIBRAN

ESSE TEXTO É DEDICADO A TODOS OS QUE ACREDITAM QUE O VERDADEIRO AMOR ESPERA UMA VEZ MAIS, OU MELHOR, ESPERA QUANTAS VEZES FOREM NECESSÁRIAS. A QUEM ACREDITA QUE O AMOR É A ÚNICA FORÇA CAPAZ DE ATRAVESSAR OS MISTÉRIOS DA VIDA E DA MORTE... A FORÇA MOTRIZ DA VIDA, PARA A QUAL NÃO EXISTEM DISTÂNCIAS E NEM IMPEDIMENTOS, NEM FRONTEIRAS GEOGRÁFICAS OU ESPIRITUAIS... DEDICO O MARAVILHOSO E INIGUALÁVEL KAHLIL GIBRAN A TODOS OS QUE, COMO EU, ACREDITAM NA FORÇA DO AMOR ATUANDO EM NOSSAS VIDAS, E NOS ENSINANDO A BUSCAR E ENCONTRAR DIREÇÕES!!!

Cinzas dos Tempos - Kahlil Gibran
PARTE I
Primavera do Ano 116 A.C. 
Já tinha caído a noite, e tudo era silêncio, enquanto a vida se arrastava na Cidade do Sol e as lâmpadas se apagavam nas casas espalhadas entre templos majestosos, ao meio de oliveiras e loureiros. A lua derramava seus raios prateados sobre as colunas de mármore branco, que se erguiam, como gigantes, no silêncio da noite, mantendo guarda aos templos dos deuses e como que contemplando com perplexidade as torres do Líbano, que se erguiam nos cumes, ao longe, das montanhas.
Aquela hora, quando as almas sucumbiam ao peso do sono, Natã, o filho do Sumo Sacerdote, entrou no templo de Ishtar,trazendo, nas mãos trêmulas, uma tocha.
Acendeu as luzes e os incensórios, até que o perfume da mirra e do olíbano alcançasse os últimos recantos; então ajoelhou-se diante do altar crivado de incrustações de ouro e marfim, ergueu as mãos à Ishtar e, com voz embargada e dolorida, exclamou: "Tem piedade de mim, ó grande Ishtar, deusa do Amor e da Beleza. Tem misericórdia e remove as mãos da Morte da minha Amada, eleita da minha alma, por tua vontade. Os remédios dos médicos e dos curandeiros não lhe restauram a vida, nem os encantamentos dos sacerdotes e feiticeiros. Nada resta fazer-se senão a tua santa vontade. Tu és a minha guia e meu auxilio. Tem piedade de mim e ouve a minha prece. Contempla o meu coração e a minha alma sofredora! Poupa a vida da minha Amada, de modo que eu possa regozijar-me com os segredos do teu amor e gloriar-me na juventude, que revela o mistério da tua força e sabedoria. Das profundezas de meu coração imploro a ti, ó suprema Ishtar! Das profundezas da escuridão da noite im­ploro a tua misericórdia! Ouve-me, ó Ishtar! Sou o teu dedicado servo Natã, filho do Sumo Sacerdote Irã, e dedico todas as minhas palavras e atos à tua grandeza, no teu altar.
"Eu amo uma jovem entre todas as jovens e a fiz minha companheira; mas os gênios do mal invejaram-na e sopraram em seu corpo uma aflição estranha e enviaram-lhe o mensageiro da Morte, que se pôs à sua cabeceira, como um espectro faminto, espalmando suas negras asas sobre ela e abrindo as suas agudas garras, prontas para a agarrarem.


"Aqui estou para rogar-te que tenhas piedade de mim e poupes aquela flor que ainda não se regozijou com o Verão da Vida. Salva-a das garras da Morte, de modo a podermos cantar alegremente em teu louvor, queimar incenso em tua honra e oferecer sacrifícios em teu altar, enchendo os teus vasos com óleo perfumado, espalhando rosas e violetas no teu lugar de adoração e queimando olíbano diante de teu sacrário. Salva-a, ó Ishtar, deusa dos milagres, e faze com que o Amor vença a Morte nesta luta da Alegria contra a Tristeza".
Natã então calou-se. Seus olhos inundaram-se de lágrimas e seu coração soltava sentidos suspiros; e depois continuou: "Ai de mim! Meus sonhos se desfizeram, ó divina Ishtar, e meu coração murchou. Revigora-me com a tua misericórdia e poupa a minha Amada!"
Nesse instante um dos seus escravos entrou no templo, correu até Natã e sussurrou-lhe aos ouvidos: "Ela abriu os olhos, senhor, e, olhando ao redor, na sua cama, não o encontrou; então chamou pelo senhor, e vim, por isso, à toda pressa, chamá-lo". Natã partiu apressadamente e o escravo seguiu-o.
Quando ele chegou ao seu palácio, entrou no quarto da pobre enferma, curvou-se sobre a sua cama, segurou-lhe a mão delicada e frágil, e beijou-a nos lábios várias vezes, como que tentando transfundir no corpo dela uma nova vida de sua própria vida. Ela moveu a cabeça nas almofadas de seda e abriu os olhos. Brotou-lhe nos lábios a sombra de um sorriso que era um leve resto de vida do seu corpo gasto, eco do apelo de um coração que parece parar aos poucos. E com uma voz que soava como o choro sumido de uma criança com fome, ao seio de uma mãe exangue, ela disse: "A Deusa chamou-me, ó Vida da minha Alma, e a Morte veio separar-me de ti. Mas não temas, pois a vontade da Deusa é sagrada, e as exigências da Morte são justas. Estou partindo agora e ouço o sussurro de uma alvura que desce sobre mim; mas as taças do Amor e da Juventude ainda estão cheias em nossas mãos, e os caminhos floridos da Vida ainda se estendem, belos, à nossa frente. Estou partindo, meu Amado, na arca do espírito, mas voltarei a este mundo, pois a grande Ishtar trará de volta à vida as almas dos namorados que partirem para a Eternidade antes de gozarem a doçura do Amor e a ventura da Juventude.
"Encontrar-nos-emos, de novo, Natã e beberemos juntos o orvalho da madrugada nas taças das pétalas dos lírios e nos regozijaremos com os pássaros das campinas além das cores do arco-íris. Até então, meu-por-toda-a-vida, adeus!"
Sua voz baixou, e seus lábios tremeram, como a flor solitária ante as lufadas da madrugada. Natã abraçou-a, com lágrimas nos olhos e, ao apertar os seus nos lábios dela, sentiu-os frios como uma pedra. Soltou um grito alucinante e começou a rasgar as suas vestes. E atirou-se ao corpo inanimado, enquanto sua alma em pranto boiava, inconsciente, entre a montanha da Vida e o precipício da Morte.
No silêncio da noite as almas adormecidas acordaram. Mulheres e crianças aterrorizaram-se ao ouvirem um grande estrondo, os penosos gritos e as amargas lamentações que vinham de todos os cantos do palácio do Sumo Sacerdote de Ishtar.
Quando chegou a manhã cansada, seus amigos procuraram Natã, para apresentar-lhe as suas expressões de simpatia; mas disseram-lhes que ele havia desaparecido. Uma quinzena depois o chefe de uma caravana recém-chegada do Oriente informou que havia visto Natã num deserto distante, vagando com um bando de gazelas.
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As idades passaram, esmagando, com os pés invisíveis, os vislumbres de civilizações, e a Deusa do Amor e da Beleza tinha deixado a região. Uma deusa estranha e fraca tomou o seu lugar. Ela destruiu os magníficos templos da Cidade do Sonho e demoliu os seus lindos palacios.  Granjas florescentes e férteis prados foram devastados, e nada restou no local, senão ruínas, lembrando às almas sensíveis os gênios de Ontem, e repetindo aos espíritos tristes o eco, apenas, dos hinos de glória. Mas as idades cruéis que esmagaram os feitos dos homens não puderam apagar os seus sonhos nem puderam enfraquecer o seu amor, pois os sonhos e as afeições são eternos, como o Espírito Eterno. Sonhos e afeições podem desaparecer, por algum tempo, acompanhando o sol, quando a noite vem, e as estrelas, quando a manhã desponta, mas, como as luzes dos céus, eles, infalivelmente, voltam.


PARTE II
Primavera do Ano 1890
O dia estava findo, a Natureza fazia os seus muitos preparativos para o sono, e o sol recolhia os seus raios dourados das planícies de Baalbek. Ali El Hussein trazia o seu rebanho de volta ao redil, no meio das ruínas dos templos. Sentava-se ele perto das antigas colunas erguidas em lembrança dos inúmeros soldados tombados no campo de batalha.
As ovelhas faziam um círculo ao redor, encantadas com a música de sua flauta. Veio a meia-noite e o céu espalhou as sementes do dia seguinte nos profundos sulcos da escuridão. Os olhos de Ali cansavam-se das sombras de sua vigília, e a sua mente exauria-se na procissão de fantasmas, marchando em terrível silêncio ao meio de paredes demolidas. Descansou em seu proprio braço, e os seus cinco sentidos o envolveram com a ponta extrema de seu véu em pregas, como uma nuvem delicada, tocando de leve a face de um lago tranquilo. Ali esqueceu-se da sua individualidade atual e encontrou a sua identidade invisível, rico de sonhos e ideais mais altos do que as leis e os ensinamentos dos homens. Seu círculo visual alargou-se-lhe diante dos olhos, e os segredos da Vida tornaram-se, gradualmente, claros a ele. Sua alma abandonou o rápido desfile do tempo, correndo para o nada; ele permaneceu só, entre pensamentos simétricos e idéias transparentes, de tão claras. Pela primeira vez na vida, Ali atinava com as causas da fome espiritual que o acompanhava desde a juventude. A fome que equilibrava a amargura e a doçura da vida. Aquela sede que une o contentamento dos suspiros da Afeição aos silêncios da Satisfação. . . Aquele anseio que não pode ser vencido pela glória do mundo, nem dobrado pelo perpassar dos séculos.
Ali sentiu uma onda de estranha afeição e de bondade terna dentro de si — nada mais, nada menos que a Memória, avivando-se como um incenso a fumegar num turíbulo de prata… Era um amor mágico, cujos dedos macios haviam tocado o coração de Ali como os dedos finos de um músico tocando as cordas sensíveis de seu instrumento… Era um poder novo, emanado do nada e crescendo, irresistivelmente, abarcando o seu ser real e enchendo o seu coração de um amor ardente, ao mesmo tempo dolorido e doce.
Ali olhou para aquelas ruínas, e seus olhos cansados se tornaram vivos, quando imaginou a glória daqueles devastados santuários que ali se erguiam como antigos templos majestosos, inabaláveis. — eternos. Seus olhos pararam e o coração lhe palpitou no peito, acelerado… E, como um cego, cuja vista fosse, repentinamente, recuperada, começou a ver, pensar e meditar. Vieram-lhe à lembranças as lâmpadas e os incensórios de prata que rodeavam a imagem de uma deusa reverenciada e adorada… Ele se lembrou dos sacerdotes oferecendo sacrifícios diante de um altar de ouro e marfim… Vislumbrou as jovens dançando, os tocadores de pandeiros, os cantores que entoavam hinos de louvor à Deusa do Amor e da Beleza; viu tudo isso diante dele, e sentiu-lhes a impressão de obscuridade nas profundezas asfixiantes do coração. Mas só a memoria não traz nada senão os ecos de vozes ouvidas nas profundezas dos tempos idos. Qual, então, a bizarra relação entre essas tão fortes memórias entrelaçadas e a vida real de um jovem simples que nasceu numa tenda e passou a primavera da vida apascentando ovelhas nos vales?
Ali encolheu-se e caminhou no meio das ruínas; e, ruminando memórias, rompeu-se-lhe, de repente, do pensamento, o véu do esquecimento. Ao alcançar a entrada do templo, cava e enorme, parou, como se um poder magnético se apoderasse dele, e apressou o passo. Ao olhar para baixo descobriu uma estátua demolida no chão. Ele se desprendeu do controle do Invisível e, incontinenti, as lágrimas da alma desencadearam-se-lhe e correram como sangue de uma profunda ferida. Gemeu-lhe o coração, arfante, um fluxo e refluxo, como as agitadas ondas do mar.
Suspirou amargamente e chorou penosamente, pois sentia uma solidão apunhalante, uma saudade dorida, como se houvesse um abismo entre o seu coração e o coração de quem se separou antes que nascesse nesta vida. Ele sentiu que a substância de sua alma era apenas uma flama da tocha incandescente que Deus havia separado de Si mesmo, ante do perpassar dos séculos.  Ele percebeu o toque de plumas de delicadas asas esvoaçantes ao redor de seu coração em brasa, e um grande amor possuindo-o… Um amor capaz de separar a mente do mundo que se mede e se pesa… Um amor que se ergue como um farol, a apontar o caminho, guiando com luz invisível… Aquele amor, ou aquele Deus que desceu naquela hora calma sobre o coração de  Ali tinha imprimido em seu ser uma afeição agridoce, como os espinhos que crescem junto a viçosas flores.
Mas quem é esse Amor, e donde veio ele? Que deseja ele de um pastor ajoelhado no meio daquelas ruínas? Será ele uma semente lançada inconscientemente nos domínios do coração por uma beduína? Ou raio de luz partido do fundo de uma nuvem, para iluminar a vida? Será um sonho que se introduziu no silêncio da noite, para ridicularizá-lo? Ou será a Verdade, que sempre existiu, desde o Começo, e continuará existindo, até o Fim?
Ali cerrou os olhos lacrimosos e, estendendo os braços,como um mendigo, exclamou: "Quem és tu, junto ao meu coração e, entretanto, longe de minhas vistas, agindo, como uma parede, entre mim e o meu ser real, ligando o meu presente a um passado olvidado? És tu a sombra de um espectro da Eternidade, para mostrar-me a vaidade da vida e a fraqueza da humanidade? Ou um gênio saído das feridas da terra, para escravizar-me e tornar-me objeto de escárnio entre os jovens da minha tribo? Quem és tu, e qual é este poder estranho que ao mesmo tempo me mata e vivifica o coração? Quem sou eu, e que ser estranho é esse que eu chamo de "eu mesmo"? Será que a Água da Vida que bebi me fez um anjo, vendo e ouvindo os segredos misteriosos do Universo, ou é ela um vinho mau que me intoxicou e me ocultou de mim mesmo?"
Ele calou-se, enquanto crescia a sua ansiedade, e seu espírito exultava. E continuou: "Oh! aquilo que a alma revela e a noite oculta. . . Oh! esplêndido espírito a flutuar sobre os meus sonhos: tu acordaste em mim uma plenitude latente como sementes férteis sob camadas de neve; passaste por mim como uma brisa suave, trazendo ao meu coração faminto a fragrância das flores dos céus; tocaste, agitando-os e sacudindo-os, os meus sentidos, como as folhas de uma árvore. Deixe-me ver-te, se és humano, ou manda que o sono feche meus olhos, para que eu possa ver a tua grandeza, através do meu ser interior. Deixa-me tocar-te; deixa-me ouvir a tua voz! Rompe este véu que impede o meu desejo e destrói este muro que esconde a minha deusa da claridade dos meus olhos — e coloca-me um par de asas para que eu possa voar contigo ao palácio do Supremo Universo. Ou enfeitiça os meus olhos, de modo a poder seguir-te ao esconderijo dos gênios, se és uma de suas noivas. Se mereço, coloca a tua mão sobre o meu coração e toma posse de mim."
Ali murmurou essas palavras na noite mística, quando sentiu a aparição das sombras da noite, como se fossem um vapor das suas lágrimas ardentes. Nas paredes do templo imaginava ver figuras mágicas, pintadas com o pincel do arco-íris.
Assim se passou uma hora, com Ali derramando lágrimas e regozijando-se nos seus terríveis transes; ouvindo as pancadas de seu coração; e olhando além das coisas, como se estivesse observando as imagens da Vida, esvaecendo, vagarosamente, à medida que eram substituídas por um sonho, esquisito em sua beleza, mas terrível em sua enormidade. Como um profeta que contempla as estrelas do céu, aguardando a Hora da Revelação, ele meditava sobre o poder existente além da sua contemplação. Percebia que o seu espírito o abandonava e saía, entre os templos, à procura de um valioso, mas desconhecido seguimento de si mesmo, perdido entre as ruínas.
A madrugada apontou, e o silêncio rugiu ao perpassar da brisa. Os primeiros raios de luz deslizavam, iluminando as partículas de éter, e o céu sorriu, como um sonhador, ao contemplar a imagem da sua bem-amada. Os pássaros emergiam de seus ninhos das fendas das paredes e se engolfavam nos salões entre as colunas, cantando suas preces matinais.
Ali pôs, na testa, a mão em concha, olhando para baixo com olhos embargados. Como Adão, quando Deus lhe abriu os olhos com Seu divino hálito, Ali viu coisas novas, estranhas e fantásticas. Então, reuniu as suas ovelhas e chamou-as, ao que elas o seguiram, mansamente, em direção aos prados verdejantes. Conduzia-as, enquanto contemplava, extasiado, o céu, como um filósofo que adivinhasse os segredos do Universo, meditando sobre eles. Alcançou um riacho, cujo murmúrio era um sedativo para o espírito e sentou-se à beira de uma fonte sob um salgueiro, cujos ramos mergulhavam na água, como que bebendo de suas frescas profundezas. Gotas de orvalho brilhavam na lã das ovelhas que pastavam entre flores e ervas verdejantes.
Em poucos momentos Ali sentiu de novo que as pancadas do coração se lhe amiudavam rapidamente e seu espírito começava a vibrar violentamente, quase visivelmente.Como uma mãe acordada subitamente pelo choro de seu filho, ele saltou de sua posição e, fitando nela, irresistivelmente, os olhos, viu uma linda mulher, trazendo um cântaro a um dos ombros, que se aproximava, lentamente, do outro lado do riacho. Quando ela alcançou a margem e se curvou para encher o vaso, olhou-o em frente, e seus olhos se encontraram com os de Ali. Como se tivesse enlouquecido, deu um grito, deixou cair o cântaro e fugiu rapidamente. Depois voltou-se, olhando, ansiosa, para Ali, sem acreditar no que via.
Passou um minuto, cujos segundos pareceram lâmpadas brilhantes, iluminando os seus espíritos e corações, e o silêncio lhes trouxe uma vaga recordação, revelando-lhes imagens e cenas distantes daquelas árvores e daquele riacho. Eles ouviram, um ao outro, no silêncio que falava, escutando, em lágrimas, os suspiros mútuos partidos do coração e da alma, até que se estabeleceu um completo entendimento entre os dois.
Ali, compelido, ainda, por uma força misteriosa, saltou o riacho, aproximou-se da encantadora criatura, abraçou-a e beijou-a longamente nos lábios. Como se a doçura dos carinhos de Ali houvesse dominado a sua vontade, ela não se moveu, e o toque delicado nos braços de Ali como que lhe roubou os forças. Entregou-se a ele, como a fragrância do jasmim se entrega às vibrações da brisa, que a leva para o firmamento. Ela descansou a cabeça no seu peito, como um sofredor que encontrou descanso. E suspirou profundamente… Um suspiro que anunciava o renascimento da felicidade num coração despedaçado e soava como uma agitação de asas que subissem, depois de terem sido feridas e derrubadas.
Ela ergueu a cabeça, a alma nos olhos — o olhar de alguém que, em profundo silêncio, despreza as palavras convencionais usadas entre os homens; a expressão que oferece miríades de pensamentos na linguagem sem palavras do coração. Ela trazia a aparência de alguém que aceita o Amor, não como uma idéia contida num grupo de palavras, mas como um reencontro que se dá muito depois de duas almas terem sido separadas pela terra e reunidas por Deus, de novo.
O casal enamorado caminhou entre os salgueiros e a unidade das duas almas era a linguagem em que falavam; os olhos com que viam a glória da Felicidade; o ouvido atento aquela magnífica revelação do Amor.
As ovelhas continuavam a pastar, e os pássaros dos céus voejavam ainda sobre as suas cabeças, cantando a canção da Madrugada, que se seguia à amplidão da noite. Ao chegarem ao fim do vale, o sol apareceu, espalhando um véu dourado sobre os outeiros e as colinas, e eles sentaram ao lado de uma pedra junto a qual se escondiam violetas. A linda mulher olhava nos olhos negros de Ali, enquanto a brisa acariciava os seus cabelos que, assim, pareciam pontas de dedos a pedir beijos…
Ela sentiu como se uma brandura mágica e envolvente lhe estivesse tocando os lábios, a despeito de sua vontade, e com uma voz serena e encantadora disse: "Ishtar restaurou os nossos espíritos de outra para esta vida, de modo a não nos ser negada a alegria do Amor e a glória da Juventude, meu amado".
Ali fechou os olhos, como se a voz dela lhe houvesse trazido imagens de um sonho que ele tinha tido, e sentiu como que um par de asas invisíveis levando-o daquele lugar e colocando-o numa estranha alcova, ao lado de uma cama sobre a qual jazia o cadáver de uma mulher, cuja beleza havia sido reclamada pela Morte. Ele gritou, assustado, e, abrindo os olhos, viu a mesma mulher sentada ao seu lado, e nos seus lábios esboçava-se um sorriso. Os olhos dela brilharam com a luz da Vida. Um brilho estranho estampou-se também no rosto de Ali, e seu coração se reconfortou. A imagem de sua visão se retirou, vagarosamente, até que se esqueceu, completamente, do passado e seus cuidados. Os dois amantes abraçaram-se e beberam, juntos, o vinho de beijos capitosos, até se embriagarem. Dormitaram, abraçados, apertadamente, até que as últimas sombras do dia foram dispersadas pelo Poder Eterno e os despertou…

domingo, 11 de abril de 2010

Born to the darkness

Não acredito em vampiros de capa e nem em paisagens negras e soturnas, mas pelo meu caminho já passaram muitas pessoas que queriam assim parecer... Tolas. Vampiras mesmo, no pior sentido,  que sugam dos outros o que podem, que roubam a alegria de viver, que enchem de sombras dizendo que oferecem a luz. E essas pessoas até que tapeiam bem, mas no dia em que a máscara cai, elas reclamam para si a alcunha de anjos injustiçados, de infelizes sofredores... Pessoas que pouco sabem de si mesmas, mas acham que já descobriram o segredo do Universo. Que fazem do negro uma bandeira, e sempre reclamam, amplificando seus problemas e a mediocridade com que tentam sem sucesso lutar contra eles. Fazem apologia à uma coisa que nem sonham como é, já que não existem limites para a escuridão... Pessoas que acham que tudo é ruim e que o mundo é perverso, e que elas é que são as coitadas. Se essas pessoas soubessem o quão são ridículas e patéticas quando divulgam em público certos textos, certas opiniões equivocadas... Não vêem que o mal vem delas, e que isso se torna arma na mão de quem realmente sabe discernir as coisas... Afinal, o vampiro só vem até quem o chama. Quem é das trevas, nesse caso?! Mas escrevem... escrevem como se soubessem! 

Textos que são lindos, tão lindos que parecem até vindos de emissários celestiais... Textos que a gente lê e se encanta, apesar de extremamente mal-escritos para quem se gaba de ter uma cultura superior... Textos que são belos e fazem sentido quando ignoramos quem os escreve. Quando sabemos de quem é, o texto se torna patético, pois é óbvio que aquilo foi escrito não por ser verdade na vida de quem fala, mas apenas e tão-somente por ser culpa de consciência pesada por maus atos praticados em todas as estações da vida. E a pessoa se enche de pose para falar do que acha ser o "amor verdadeiro", sendo que a única coisa que conheceu na vida foi a posse, o apego, e principalmente a ação de usar as pessoas... De não assumir a própria incapacidade, jogando nos ombros dos outros culpas que lhe cabem, e que prefere não assumir. O mundo não é feito só de quem te aprova, e nem todo mundo que vangloria você está sendo sincero. Tem que aprender que nem sempre você está coberto de razão, que nem sempre você é a vítima das circunstâncias, e nem tampouco somos "livres" no sentido deturpado dessa palavra, como se "ser livre" isentasse as pessoas de ter responsabilidade com relação ao que fazem de mal ou de bem às outras...

É bonito escrever textos falando de um amor idealizado, falando de amizades que só são reais e verdadeiras quando os amigos seguem seus passos e aprovam todas as suas atitudes. É mais fácil ainda falar de um amor irreal, quando a vida dá as chances de se conhecer esse sentimento, mas a pessoa, malandramente, inverte essa polaridade, se mostrando tão indigna e tão lixo que consegue despertar ódio, pena, e outros sentimentos mesquinhos, a partir do momento em que a pessoa escolhida já não é perfeita como a anterior, e deixa de ser a marionete dela... Pessoas que são podres e pobres, incapazes de enxergar o quão são perversas, imaturas e emocionalmente atrasadas. Pedem aos Deuses um amor, mas vivem em meio às sombras; pedem um amor, mas que esse amor seja do jeito que eles querem, e de preferência uma pessoa que seja facilmente enganável, pois esses seres acham que o melhor da vida é isso: fazer as pessoas de marionetes, afinal, tem gente que acha que é Anúbis, que pode colocar o coração dos outros na balança. Gente que acha lícito amar duas ou mais pessoas ao mesmo tempo,enganando ambas de forma canalha. Gente que acha que tem conhecimento ou sabedoria suficientes para discernir quem presta e quem não presta... Gente que acha que pode estabelecer comparações, que acha que é certo ter atitudes dignas de gente porca e sair impune, falando de amor e das estações trazendo surpresas... Lógico! Sempre é tempo de recomeçar! Dane-se quem ficou pra trás, para quem só olha o próprio umbigo. Mas acredito que a vida é redonda... assumo minhas responsabilidades e os meus erros, mas também creio que nada passa incólume frente à Nêmesis celeste que a tudo vê. E do mesmo modo que ela, tenho todo o tempo do mundo para esperar a hora de descontar moeda por moeda, sem abatimento algum. Sendo justo ou injusto, o mau nome é o que está grafado na placa da memória dos injustos culpados, o bem escorre como cinzas pelas poeiras dos tempos. Se sendo bom, nos dão a fama de maus, que eu seja mau, para ser mesmo assustador! Quem deve teme... E tem mais é que temer, mesmo... Afinal, tudo tem retorno. A colheita é livre, mas a semeadura é obrigatória... E que mal tem quando os "maus" resolvem dar uma ajuda ao destino, adiantando certos atos de justiça? 

Piedade é pra cristão, é pra gente que vai no centro tomar passe como se fosse hóstia, mas sem se preocupar que tipo de atitude tem na vida cotidiana, se fazendo de vítima o tempo todo, como se tivessem mesmo a pior vida do mundo.... Enfim, é tanta patifaria que eu nem tenho o que dizer. Se gosta tanto de reclamar, nada mais justo darmos motivos reais para isso. 

Eu assumo que vim da escuridão... que todos viemos... mas apenas vejo que a treva serve para vermos como a luz é boa, e mesmo a sombra serve para vermos que existe luz e existe treva, e eu é que tenho que saber como ando entre esses mundos, e como escolho meus mundos... Acho que é por aí. Sei que certas trevas me mostraram algumas coisas de forma tão contundente que eu já saberia reconhecer certas patifarias medíocres a quilômetros de distância. Agradeço a isso, mas não isento quem faz coisas erradas... e aqui estou. Quero cada moeda na hora certa. Quero parar e esperar, como a naja que dorme de dia e espera a noite sem lua para dar seu bote... E que seja um bote fatal... Para quê fingir? Deixo isso para os fracos, os eternos pseudo-sobreviventes das mazelas e injustiças que eles mesmos criam. Eles fingem, se fazem de bonzinhos... Eu não preciso disso. Pouco me importa o julgamento desses imbecis. Tenho todo o tempo do mundo... 

Para ti, mademoiselle...

Me bateu uma saudade de seu ar refinado, de seu sotaque afrancesado, da ironia fina do seu olhar... Lembrei de ti, minha querida! 

Uma música bem gostosa pra você dançar e criar, tirada de uma mega produção canadense chamada "Don Juan"... Charme total, a sua cara. (risos)

ZOLTAN E NAHEMA... parte IV

Os boêmios se tranquilizaram e Nahema ordenou a um jovem que fosse avisar Zoltan que o perigo havia passado, e que já podiam retornar. Só que o destino urdiu suas tramas, interligando os caminhos do Bispo de Paris e de Pièrre-Le-Centaure. Zoltan estava tão seguro de si mesmo e dos bruxedos da irmã que cavalgava tranquilamente. Centauro, na garupa, estava mais apreensivo. 

- Vamos a Paris? - fez o circense, divertido. - Estou com saudade de certos becos...

Pièrre deu risada.

-  Sabes que não podemos. Se por lá eu aparecesse, seria preso com certeza. E não quero deixar uma vida que aprendi a amar. 

- Então podemos procurar uma nascente, e nos banharmos! Para tirar as energias imundas vindas do Bispo! 

Tudo aconteceu muito rápido, Estavam na pequena estrada, quando uma comitiva surgiu a toda brida, atrás deles. Inspirado talvez por gênios perversos, o Bispo seguiu a direção indicada por Nahema, e ao longe, surpreendeu Centauro e Zoltan. Reconhecendo o Bispo à frente daquele destacamento de homens, Zoltan esporeou o cavalo e se embrenhou no bosque. O Bispo, em sua montaria, seguiu-lhe o encalço, enquanto o seu auxiliar tentava inutilmente acompanhar-lhe. A escolta, cerca de duzentos metros atrás, não compreendeu o rompante do padre, que, como um alucinado impulsionado por uma mola, partiu à frente deles, seguindo de forma tão perigosa e sem proteção nenhuma para enfrentar um bandido procurado! Será que ele se achava Deus?! Estavam fartos, aquele destacamento havia tido apenas prejuízos, a missão era inútil, pois era obrigação do Rei, e não daquele Bispo que os tratava de forma tão impertinente. 

Em meio à perseguição, mais e mais o Bispo se distanciava dos guardas e de seu escudeiro. Centauro disse a Zoltan:

- Ele está cada vez mais próximo, porém só. Todos os que o acompanharam se dispersaram. 

- Vou matá-lo. Após a ponte, vou parar o cavalo, apear e atirar nesse maldito. É ele ou nós. E até descobrirem, já estaremos bem longe daqui. Teremos de enterrá-lo na mata. - e enquanto idealizava esse plano de emergência, Zoltan teve singular idéia, e mudou de rumo, esporeando ainda mais o cavalo. 

Centauro nada disse, consentindo. Não havia mais o que fazer. O Bispo, em sua sede de vingança, nada mais enxergava à sua frente, apenas a sagrada taça, Centauro e Marie pendurados na forca e o acampamento circense em chamas. Viu quando os fugitivos cruzaram uma pequena e antiga ponte que conduzia a um povoado. Estava próximo! Ia chegar naquela aldeia fazendo grande alarme, e eles seriam presos! Qualquer cidadão de bem se negaria a dar asilo a fugitivos da Igreja, ladrões de relíquias santas! Estava tão acostumado a usar suas insígnias episcopais para abrir portas! Não viu, porém, que o cavalo pisou em falso ao cruzar a mesma ponte, derrubando-o e fazendo com que rolasse ribanceira abaixo. O Bispo não teve sequer tempo de fazer uma oração para se despedir da vida e encomendar a própria alma a Deus. A queda não foi tão grande, mas a pancada na cabeça de encontro às pedras foi fatal. 

Centauro apenas ouviu seu grito, e Zoltan freou a cavalgadura. Apearam, e o boêmio sacou a arma, em atitude defensiva. Voltaram alguns passos, na direção do pequeno ribeiro que passava abaixo da tal ponte antiga, e encontraram o Bispo caído, um filete de sangue escorrendo de sua cabeça, tingindo de vermelho as águas tranquilas. Do cavalo dele, nem sinal. 

- Será que ele morreu, Zoltan?

O egípcio levantou a sobrancelha:

- Espero que sim. Pois ao menos me economiza a bala, e nós não nos complicamos. Foi um acidente. Creio que o demônio veio buscar um dos seus mais fiéis servidores... - e gargalhou. 

CONTINUA...