terça-feira, 10 de agosto de 2010

A ti, meu-por-toda-a-vida... e além dela... e antes dela... e sempre!





"O REENCONTRO DE DUAS PESSOAS EXALA SIMPLESMENTE O SABOR DA PAIXÃO E DO DESEJO DE UM IR AO ENCONTRO DO OUTRO. ESTAR SEM VOCÊ É COMO ABRAÇAR AS DORES DO MUNDO, POIS SÓ A TEU LADO ME SINTO SEGURO"

No tablado dos teus sonhos quero dançar. Quero ser tua música. Pra te ter em contato com a pele e a alma... Te lembras? Um dia, você me perguntou, entre sorrisos e devaneios: "Você acredita que, quando duas almas tem que se encontrar e ficar juntas, elas ficam? Independente dos tempos, e do que aconteça, mesmo que a morte separe?"... E eu senti um arrepio, e respondi sem medo: "Sim, eu sempre acreditei. Pois se assim não fosse, de que adiantaria a vida?"... E hoje me lembro disso, e sei o quanto você tinha razão. Me apego a isso para viver, para buscar a minha felicidade, acreditando que, nessa vida, nada é à toa... Lembra quando eu te disse: "Você encheu meu céu de estrelas... Trouxe a lua pra minha vida"? Repito isso hoje e sempre, e sei que, onde você está, você ouve, e sorri. Como eu sorrio aqui e adormeço, na esperança de sonhar com você. Te amo, sempre. 

"Se a tua alma sempre me seguiu, a minha sempre te esperou. Se a tua alma sempre me acolheu, a minha sempre te amparou. Se a tua alma sempre me sorriu, a minha sempre te abraçou. Se a tua alma sempre me sonhou, a minha alma sempre, sempre te amou! Alma gêmea da minha que sempre me pressente e sempre me adivinha... Todos os dias te amo mais, sempre mais, cada vez mais!"


" Hoje, de algum lugar longe destas terras,há um doce olhar só para você, um olhar especial,
de alguém especial, de distante origens ,
um olhar de um justo coração que pulsa só a vida.
Que sorri por que ama plenamente 

Sem julgamentos, preconceitos, nem prisões.
Hoje como ontem, longe destes céus,
há um encantador olhar só para você
e nesse olhar vai para você a magia da luz,
a simplicidade do perdão, a força para comungar
com a vida, a esperança de dias mais radiantes de paz.

Hoje de algum lugar dentro de você,
alguém que já o amou muito e ainda o ama,
diz pra você que valeu a pena ter estado nestas terras, sob estes céus,
falando de união, paz, amor e perdão.

Poder sentir a força que faz você sorrir
e continuar o caminho
que um dia aquele doce olhar iniciou pra você.
Tudo isso só para você saber que a vida continua e a morte é uma viagem."



"Alma gêmea de minha alma
Flor de luz de minha vida
Sublime estrela caída
Das belezas da amplidão .

Quando eu errava no mundo
Triste e só, no meu caminho ,
Chegaste, devagarinho ,
E encheste-me o coração.


Vinhas na benção das flores
Da divina claridade ,
Tecer-me a felicidade
Em sorrisos de esplendor !

És meu tesouro infinito .
Juro-te eterna aliança
Porque sou tua esperança ,
Como és todo meu amor !

Alma gêmea de minha alma
Se eu te perder algum dia...
Serei tua escura agonia ,
Da saudade nos seus véus...

Se um dia me abandonares
Luz terna dos meus amores,
Hei de esperar-te , entre as flores
Da claridade dos céus ."


Onde você estiver, meu anjo... Sempre te amarei. 


"Estou partindo, meu amado, na arca do espírito, mas voltarei a este mundo, pois a grande Ishtar trará de volta as almas dos namorados que partirem para a eternidade antes de gozarem a doçura do amor e a ventura da juventude." Khalil Gibran, "Cinzas dos Tempos "


sábado, 17 de julho de 2010

"Cinzas dos Tempos" - conto de KHALIL GIBRAN

ESSE TEXTO É DEDICADO A TODOS OS QUE ACREDITAM QUE O VERDADEIRO AMOR ESPERA UMA VEZ MAIS, OU MELHOR, ESPERA QUANTAS VEZES FOREM NECESSÁRIAS. A QUEM ACREDITA QUE O AMOR É A ÚNICA FORÇA CAPAZ DE ATRAVESSAR OS MISTÉRIOS DA VIDA E DA MORTE... A FORÇA MOTRIZ DA VIDA, PARA A QUAL NÃO EXISTEM DISTÂNCIAS E NEM IMPEDIMENTOS, NEM FRONTEIRAS GEOGRÁFICAS OU ESPIRITUAIS... DEDICO O MARAVILHOSO E INIGUALÁVEL KAHLIL GIBRAN A TODOS OS QUE, COMO EU, ACREDITAM NA FORÇA DO AMOR ATUANDO EM NOSSAS VIDAS, E NOS ENSINANDO A BUSCAR E ENCONTRAR DIREÇÕES!!!

Cinzas dos Tempos - Kahlil Gibran
PARTE I
Primavera do Ano 116 A.C. 
Já tinha caído a noite, e tudo era silêncio, enquanto a vida se arrastava na Cidade do Sol e as lâmpadas se apagavam nas casas espalhadas entre templos majestosos, ao meio de oliveiras e loureiros. A lua derramava seus raios prateados sobre as colunas de mármore branco, que se erguiam, como gigantes, no silêncio da noite, mantendo guarda aos templos dos deuses e como que contemplando com perplexidade as torres do Líbano, que se erguiam nos cumes, ao longe, das montanhas.
Aquela hora, quando as almas sucumbiam ao peso do sono, Natã, o filho do Sumo Sacerdote, entrou no templo de Ishtar,trazendo, nas mãos trêmulas, uma tocha.
Acendeu as luzes e os incensórios, até que o perfume da mirra e do olíbano alcançasse os últimos recantos; então ajoelhou-se diante do altar crivado de incrustações de ouro e marfim, ergueu as mãos à Ishtar e, com voz embargada e dolorida, exclamou: "Tem piedade de mim, ó grande Ishtar, deusa do Amor e da Beleza. Tem misericórdia e remove as mãos da Morte da minha Amada, eleita da minha alma, por tua vontade. Os remédios dos médicos e dos curandeiros não lhe restauram a vida, nem os encantamentos dos sacerdotes e feiticeiros. Nada resta fazer-se senão a tua santa vontade. Tu és a minha guia e meu auxilio. Tem piedade de mim e ouve a minha prece. Contempla o meu coração e a minha alma sofredora! Poupa a vida da minha Amada, de modo que eu possa regozijar-me com os segredos do teu amor e gloriar-me na juventude, que revela o mistério da tua força e sabedoria. Das profundezas de meu coração imploro a ti, ó suprema Ishtar! Das profundezas da escuridão da noite im­ploro a tua misericórdia! Ouve-me, ó Ishtar! Sou o teu dedicado servo Natã, filho do Sumo Sacerdote Irã, e dedico todas as minhas palavras e atos à tua grandeza, no teu altar.
"Eu amo uma jovem entre todas as jovens e a fiz minha companheira; mas os gênios do mal invejaram-na e sopraram em seu corpo uma aflição estranha e enviaram-lhe o mensageiro da Morte, que se pôs à sua cabeceira, como um espectro faminto, espalmando suas negras asas sobre ela e abrindo as suas agudas garras, prontas para a agarrarem.


"Aqui estou para rogar-te que tenhas piedade de mim e poupes aquela flor que ainda não se regozijou com o Verão da Vida. Salva-a das garras da Morte, de modo a podermos cantar alegremente em teu louvor, queimar incenso em tua honra e oferecer sacrifícios em teu altar, enchendo os teus vasos com óleo perfumado, espalhando rosas e violetas no teu lugar de adoração e queimando olíbano diante de teu sacrário. Salva-a, ó Ishtar, deusa dos milagres, e faze com que o Amor vença a Morte nesta luta da Alegria contra a Tristeza".
Natã então calou-se. Seus olhos inundaram-se de lágrimas e seu coração soltava sentidos suspiros; e depois continuou: "Ai de mim! Meus sonhos se desfizeram, ó divina Ishtar, e meu coração murchou. Revigora-me com a tua misericórdia e poupa a minha Amada!"
Nesse instante um dos seus escravos entrou no templo, correu até Natã e sussurrou-lhe aos ouvidos: "Ela abriu os olhos, senhor, e, olhando ao redor, na sua cama, não o encontrou; então chamou pelo senhor, e vim, por isso, à toda pressa, chamá-lo". Natã partiu apressadamente e o escravo seguiu-o.
Quando ele chegou ao seu palácio, entrou no quarto da pobre enferma, curvou-se sobre a sua cama, segurou-lhe a mão delicada e frágil, e beijou-a nos lábios várias vezes, como que tentando transfundir no corpo dela uma nova vida de sua própria vida. Ela moveu a cabeça nas almofadas de seda e abriu os olhos. Brotou-lhe nos lábios a sombra de um sorriso que era um leve resto de vida do seu corpo gasto, eco do apelo de um coração que parece parar aos poucos. E com uma voz que soava como o choro sumido de uma criança com fome, ao seio de uma mãe exangue, ela disse: "A Deusa chamou-me, ó Vida da minha Alma, e a Morte veio separar-me de ti. Mas não temas, pois a vontade da Deusa é sagrada, e as exigências da Morte são justas. Estou partindo agora e ouço o sussurro de uma alvura que desce sobre mim; mas as taças do Amor e da Juventude ainda estão cheias em nossas mãos, e os caminhos floridos da Vida ainda se estendem, belos, à nossa frente. Estou partindo, meu Amado, na arca do espírito, mas voltarei a este mundo, pois a grande Ishtar trará de volta à vida as almas dos namorados que partirem para a Eternidade antes de gozarem a doçura do Amor e a ventura da Juventude.
"Encontrar-nos-emos, de novo, Natã e beberemos juntos o orvalho da madrugada nas taças das pétalas dos lírios e nos regozijaremos com os pássaros das campinas além das cores do arco-íris. Até então, meu-por-toda-a-vida, adeus!"
Sua voz baixou, e seus lábios tremeram, como a flor solitária ante as lufadas da madrugada. Natã abraçou-a, com lágrimas nos olhos e, ao apertar os seus nos lábios dela, sentiu-os frios como uma pedra. Soltou um grito alucinante e começou a rasgar as suas vestes. E atirou-se ao corpo inanimado, enquanto sua alma em pranto boiava, inconsciente, entre a montanha da Vida e o precipício da Morte.
No silêncio da noite as almas adormecidas acordaram. Mulheres e crianças aterrorizaram-se ao ouvirem um grande estrondo, os penosos gritos e as amargas lamentações que vinham de todos os cantos do palácio do Sumo Sacerdote de Ishtar.
Quando chegou a manhã cansada, seus amigos procuraram Natã, para apresentar-lhe as suas expressões de simpatia; mas disseram-lhes que ele havia desaparecido. Uma quinzena depois o chefe de uma caravana recém-chegada do Oriente informou que havia visto Natã num deserto distante, vagando com um bando de gazelas.
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As idades passaram, esmagando, com os pés invisíveis, os vislumbres de civilizações, e a Deusa do Amor e da Beleza tinha deixado a região. Uma deusa estranha e fraca tomou o seu lugar. Ela destruiu os magníficos templos da Cidade do Sonho e demoliu os seus lindos palacios.  Granjas florescentes e férteis prados foram devastados, e nada restou no local, senão ruínas, lembrando às almas sensíveis os gênios de Ontem, e repetindo aos espíritos tristes o eco, apenas, dos hinos de glória. Mas as idades cruéis que esmagaram os feitos dos homens não puderam apagar os seus sonhos nem puderam enfraquecer o seu amor, pois os sonhos e as afeições são eternos, como o Espírito Eterno. Sonhos e afeições podem desaparecer, por algum tempo, acompanhando o sol, quando a noite vem, e as estrelas, quando a manhã desponta, mas, como as luzes dos céus, eles, infalivelmente, voltam.


PARTE II
Primavera do Ano 1890
O dia estava findo, a Natureza fazia os seus muitos preparativos para o sono, e o sol recolhia os seus raios dourados das planícies de Baalbek. Ali El Hussein trazia o seu rebanho de volta ao redil, no meio das ruínas dos templos. Sentava-se ele perto das antigas colunas erguidas em lembrança dos inúmeros soldados tombados no campo de batalha.
As ovelhas faziam um círculo ao redor, encantadas com a música de sua flauta. Veio a meia-noite e o céu espalhou as sementes do dia seguinte nos profundos sulcos da escuridão. Os olhos de Ali cansavam-se das sombras de sua vigília, e a sua mente exauria-se na procissão de fantasmas, marchando em terrível silêncio ao meio de paredes demolidas. Descansou em seu proprio braço, e os seus cinco sentidos o envolveram com a ponta extrema de seu véu em pregas, como uma nuvem delicada, tocando de leve a face de um lago tranquilo. Ali esqueceu-se da sua individualidade atual e encontrou a sua identidade invisível, rico de sonhos e ideais mais altos do que as leis e os ensinamentos dos homens. Seu círculo visual alargou-se-lhe diante dos olhos, e os segredos da Vida tornaram-se, gradualmente, claros a ele. Sua alma abandonou o rápido desfile do tempo, correndo para o nada; ele permaneceu só, entre pensamentos simétricos e idéias transparentes, de tão claras. Pela primeira vez na vida, Ali atinava com as causas da fome espiritual que o acompanhava desde a juventude. A fome que equilibrava a amargura e a doçura da vida. Aquela sede que une o contentamento dos suspiros da Afeição aos silêncios da Satisfação. . . Aquele anseio que não pode ser vencido pela glória do mundo, nem dobrado pelo perpassar dos séculos.
Ali sentiu uma onda de estranha afeição e de bondade terna dentro de si — nada mais, nada menos que a Memória, avivando-se como um incenso a fumegar num turíbulo de prata… Era um amor mágico, cujos dedos macios haviam tocado o coração de Ali como os dedos finos de um músico tocando as cordas sensíveis de seu instrumento… Era um poder novo, emanado do nada e crescendo, irresistivelmente, abarcando o seu ser real e enchendo o seu coração de um amor ardente, ao mesmo tempo dolorido e doce.
Ali olhou para aquelas ruínas, e seus olhos cansados se tornaram vivos, quando imaginou a glória daqueles devastados santuários que ali se erguiam como antigos templos majestosos, inabaláveis. — eternos. Seus olhos pararam e o coração lhe palpitou no peito, acelerado… E, como um cego, cuja vista fosse, repentinamente, recuperada, começou a ver, pensar e meditar. Vieram-lhe à lembranças as lâmpadas e os incensórios de prata que rodeavam a imagem de uma deusa reverenciada e adorada… Ele se lembrou dos sacerdotes oferecendo sacrifícios diante de um altar de ouro e marfim… Vislumbrou as jovens dançando, os tocadores de pandeiros, os cantores que entoavam hinos de louvor à Deusa do Amor e da Beleza; viu tudo isso diante dele, e sentiu-lhes a impressão de obscuridade nas profundezas asfixiantes do coração. Mas só a memoria não traz nada senão os ecos de vozes ouvidas nas profundezas dos tempos idos. Qual, então, a bizarra relação entre essas tão fortes memórias entrelaçadas e a vida real de um jovem simples que nasceu numa tenda e passou a primavera da vida apascentando ovelhas nos vales?
Ali encolheu-se e caminhou no meio das ruínas; e, ruminando memórias, rompeu-se-lhe, de repente, do pensamento, o véu do esquecimento. Ao alcançar a entrada do templo, cava e enorme, parou, como se um poder magnético se apoderasse dele, e apressou o passo. Ao olhar para baixo descobriu uma estátua demolida no chão. Ele se desprendeu do controle do Invisível e, incontinenti, as lágrimas da alma desencadearam-se-lhe e correram como sangue de uma profunda ferida. Gemeu-lhe o coração, arfante, um fluxo e refluxo, como as agitadas ondas do mar.
Suspirou amargamente e chorou penosamente, pois sentia uma solidão apunhalante, uma saudade dorida, como se houvesse um abismo entre o seu coração e o coração de quem se separou antes que nascesse nesta vida. Ele sentiu que a substância de sua alma era apenas uma flama da tocha incandescente que Deus havia separado de Si mesmo, ante do perpassar dos séculos.  Ele percebeu o toque de plumas de delicadas asas esvoaçantes ao redor de seu coração em brasa, e um grande amor possuindo-o… Um amor capaz de separar a mente do mundo que se mede e se pesa… Um amor que se ergue como um farol, a apontar o caminho, guiando com luz invisível… Aquele amor, ou aquele Deus que desceu naquela hora calma sobre o coração de  Ali tinha imprimido em seu ser uma afeição agridoce, como os espinhos que crescem junto a viçosas flores.
Mas quem é esse Amor, e donde veio ele? Que deseja ele de um pastor ajoelhado no meio daquelas ruínas? Será ele uma semente lançada inconscientemente nos domínios do coração por uma beduína? Ou raio de luz partido do fundo de uma nuvem, para iluminar a vida? Será um sonho que se introduziu no silêncio da noite, para ridicularizá-lo? Ou será a Verdade, que sempre existiu, desde o Começo, e continuará existindo, até o Fim?
Ali cerrou os olhos lacrimosos e, estendendo os braços,como um mendigo, exclamou: "Quem és tu, junto ao meu coração e, entretanto, longe de minhas vistas, agindo, como uma parede, entre mim e o meu ser real, ligando o meu presente a um passado olvidado? És tu a sombra de um espectro da Eternidade, para mostrar-me a vaidade da vida e a fraqueza da humanidade? Ou um gênio saído das feridas da terra, para escravizar-me e tornar-me objeto de escárnio entre os jovens da minha tribo? Quem és tu, e qual é este poder estranho que ao mesmo tempo me mata e vivifica o coração? Quem sou eu, e que ser estranho é esse que eu chamo de "eu mesmo"? Será que a Água da Vida que bebi me fez um anjo, vendo e ouvindo os segredos misteriosos do Universo, ou é ela um vinho mau que me intoxicou e me ocultou de mim mesmo?"
Ele calou-se, enquanto crescia a sua ansiedade, e seu espírito exultava. E continuou: "Oh! aquilo que a alma revela e a noite oculta. . . Oh! esplêndido espírito a flutuar sobre os meus sonhos: tu acordaste em mim uma plenitude latente como sementes férteis sob camadas de neve; passaste por mim como uma brisa suave, trazendo ao meu coração faminto a fragrância das flores dos céus; tocaste, agitando-os e sacudindo-os, os meus sentidos, como as folhas de uma árvore. Deixe-me ver-te, se és humano, ou manda que o sono feche meus olhos, para que eu possa ver a tua grandeza, através do meu ser interior. Deixa-me tocar-te; deixa-me ouvir a tua voz! Rompe este véu que impede o meu desejo e destrói este muro que esconde a minha deusa da claridade dos meus olhos — e coloca-me um par de asas para que eu possa voar contigo ao palácio do Supremo Universo. Ou enfeitiça os meus olhos, de modo a poder seguir-te ao esconderijo dos gênios, se és uma de suas noivas. Se mereço, coloca a tua mão sobre o meu coração e toma posse de mim."
Ali murmurou essas palavras na noite mística, quando sentiu a aparição das sombras da noite, como se fossem um vapor das suas lágrimas ardentes. Nas paredes do templo imaginava ver figuras mágicas, pintadas com o pincel do arco-íris.
Assim se passou uma hora, com Ali derramando lágrimas e regozijando-se nos seus terríveis transes; ouvindo as pancadas de seu coração; e olhando além das coisas, como se estivesse observando as imagens da Vida, esvaecendo, vagarosamente, à medida que eram substituídas por um sonho, esquisito em sua beleza, mas terrível em sua enormidade. Como um profeta que contempla as estrelas do céu, aguardando a Hora da Revelação, ele meditava sobre o poder existente além da sua contemplação. Percebia que o seu espírito o abandonava e saía, entre os templos, à procura de um valioso, mas desconhecido seguimento de si mesmo, perdido entre as ruínas.
A madrugada apontou, e o silêncio rugiu ao perpassar da brisa. Os primeiros raios de luz deslizavam, iluminando as partículas de éter, e o céu sorriu, como um sonhador, ao contemplar a imagem da sua bem-amada. Os pássaros emergiam de seus ninhos das fendas das paredes e se engolfavam nos salões entre as colunas, cantando suas preces matinais.
Ali pôs, na testa, a mão em concha, olhando para baixo com olhos embargados. Como Adão, quando Deus lhe abriu os olhos com Seu divino hálito, Ali viu coisas novas, estranhas e fantásticas. Então, reuniu as suas ovelhas e chamou-as, ao que elas o seguiram, mansamente, em direção aos prados verdejantes. Conduzia-as, enquanto contemplava, extasiado, o céu, como um filósofo que adivinhasse os segredos do Universo, meditando sobre eles. Alcançou um riacho, cujo murmúrio era um sedativo para o espírito e sentou-se à beira de uma fonte sob um salgueiro, cujos ramos mergulhavam na água, como que bebendo de suas frescas profundezas. Gotas de orvalho brilhavam na lã das ovelhas que pastavam entre flores e ervas verdejantes.
Em poucos momentos Ali sentiu de novo que as pancadas do coração se lhe amiudavam rapidamente e seu espírito começava a vibrar violentamente, quase visivelmente.Como uma mãe acordada subitamente pelo choro de seu filho, ele saltou de sua posição e, fitando nela, irresistivelmente, os olhos, viu uma linda mulher, trazendo um cântaro a um dos ombros, que se aproximava, lentamente, do outro lado do riacho. Quando ela alcançou a margem e se curvou para encher o vaso, olhou-o em frente, e seus olhos se encontraram com os de Ali. Como se tivesse enlouquecido, deu um grito, deixou cair o cântaro e fugiu rapidamente. Depois voltou-se, olhando, ansiosa, para Ali, sem acreditar no que via.
Passou um minuto, cujos segundos pareceram lâmpadas brilhantes, iluminando os seus espíritos e corações, e o silêncio lhes trouxe uma vaga recordação, revelando-lhes imagens e cenas distantes daquelas árvores e daquele riacho. Eles ouviram, um ao outro, no silêncio que falava, escutando, em lágrimas, os suspiros mútuos partidos do coração e da alma, até que se estabeleceu um completo entendimento entre os dois.
Ali, compelido, ainda, por uma força misteriosa, saltou o riacho, aproximou-se da encantadora criatura, abraçou-a e beijou-a longamente nos lábios. Como se a doçura dos carinhos de Ali houvesse dominado a sua vontade, ela não se moveu, e o toque delicado nos braços de Ali como que lhe roubou os forças. Entregou-se a ele, como a fragrância do jasmim se entrega às vibrações da brisa, que a leva para o firmamento. Ela descansou a cabeça no seu peito, como um sofredor que encontrou descanso. E suspirou profundamente… Um suspiro que anunciava o renascimento da felicidade num coração despedaçado e soava como uma agitação de asas que subissem, depois de terem sido feridas e derrubadas.
Ela ergueu a cabeça, a alma nos olhos — o olhar de alguém que, em profundo silêncio, despreza as palavras convencionais usadas entre os homens; a expressão que oferece miríades de pensamentos na linguagem sem palavras do coração. Ela trazia a aparência de alguém que aceita o Amor, não como uma idéia contida num grupo de palavras, mas como um reencontro que se dá muito depois de duas almas terem sido separadas pela terra e reunidas por Deus, de novo.
O casal enamorado caminhou entre os salgueiros e a unidade das duas almas era a linguagem em que falavam; os olhos com que viam a glória da Felicidade; o ouvido atento aquela magnífica revelação do Amor.
As ovelhas continuavam a pastar, e os pássaros dos céus voejavam ainda sobre as suas cabeças, cantando a canção da Madrugada, que se seguia à amplidão da noite. Ao chegarem ao fim do vale, o sol apareceu, espalhando um véu dourado sobre os outeiros e as colinas, e eles sentaram ao lado de uma pedra junto a qual se escondiam violetas. A linda mulher olhava nos olhos negros de Ali, enquanto a brisa acariciava os seus cabelos que, assim, pareciam pontas de dedos a pedir beijos…
Ela sentiu como se uma brandura mágica e envolvente lhe estivesse tocando os lábios, a despeito de sua vontade, e com uma voz serena e encantadora disse: "Ishtar restaurou os nossos espíritos de outra para esta vida, de modo a não nos ser negada a alegria do Amor e a glória da Juventude, meu amado".
Ali fechou os olhos, como se a voz dela lhe houvesse trazido imagens de um sonho que ele tinha tido, e sentiu como que um par de asas invisíveis levando-o daquele lugar e colocando-o numa estranha alcova, ao lado de uma cama sobre a qual jazia o cadáver de uma mulher, cuja beleza havia sido reclamada pela Morte. Ele gritou, assustado, e, abrindo os olhos, viu a mesma mulher sentada ao seu lado, e nos seus lábios esboçava-se um sorriso. Os olhos dela brilharam com a luz da Vida. Um brilho estranho estampou-se também no rosto de Ali, e seu coração se reconfortou. A imagem de sua visão se retirou, vagarosamente, até que se esqueceu, completamente, do passado e seus cuidados. Os dois amantes abraçaram-se e beberam, juntos, o vinho de beijos capitosos, até se embriagarem. Dormitaram, abraçados, apertadamente, até que as últimas sombras do dia foram dispersadas pelo Poder Eterno e os despertou…

domingo, 11 de abril de 2010

Born to the darkness

Não acredito em vampiros de capa e nem em paisagens negras e soturnas, mas pelo meu caminho já passaram muitas pessoas que queriam assim parecer... Tolas. Vampiras mesmo, no pior sentido,  que sugam dos outros o que podem, que roubam a alegria de viver, que enchem de sombras dizendo que oferecem a luz. E essas pessoas até que tapeiam bem, mas no dia em que a máscara cai, elas reclamam para si a alcunha de anjos injustiçados, de infelizes sofredores... Pessoas que pouco sabem de si mesmas, mas acham que já descobriram o segredo do Universo. Que fazem do negro uma bandeira, e sempre reclamam, amplificando seus problemas e a mediocridade com que tentam sem sucesso lutar contra eles. Fazem apologia à uma coisa que nem sonham como é, já que não existem limites para a escuridão... Pessoas que acham que tudo é ruim e que o mundo é perverso, e que elas é que são as coitadas. Se essas pessoas soubessem o quão são ridículas e patéticas quando divulgam em público certos textos, certas opiniões equivocadas... Não vêem que o mal vem delas, e que isso se torna arma na mão de quem realmente sabe discernir as coisas... Afinal, o vampiro só vem até quem o chama. Quem é das trevas, nesse caso?! Mas escrevem... escrevem como se soubessem! 

Textos que são lindos, tão lindos que parecem até vindos de emissários celestiais... Textos que a gente lê e se encanta, apesar de extremamente mal-escritos para quem se gaba de ter uma cultura superior... Textos que são belos e fazem sentido quando ignoramos quem os escreve. Quando sabemos de quem é, o texto se torna patético, pois é óbvio que aquilo foi escrito não por ser verdade na vida de quem fala, mas apenas e tão-somente por ser culpa de consciência pesada por maus atos praticados em todas as estações da vida. E a pessoa se enche de pose para falar do que acha ser o "amor verdadeiro", sendo que a única coisa que conheceu na vida foi a posse, o apego, e principalmente a ação de usar as pessoas... De não assumir a própria incapacidade, jogando nos ombros dos outros culpas que lhe cabem, e que prefere não assumir. O mundo não é feito só de quem te aprova, e nem todo mundo que vangloria você está sendo sincero. Tem que aprender que nem sempre você está coberto de razão, que nem sempre você é a vítima das circunstâncias, e nem tampouco somos "livres" no sentido deturpado dessa palavra, como se "ser livre" isentasse as pessoas de ter responsabilidade com relação ao que fazem de mal ou de bem às outras...

É bonito escrever textos falando de um amor idealizado, falando de amizades que só são reais e verdadeiras quando os amigos seguem seus passos e aprovam todas as suas atitudes. É mais fácil ainda falar de um amor irreal, quando a vida dá as chances de se conhecer esse sentimento, mas a pessoa, malandramente, inverte essa polaridade, se mostrando tão indigna e tão lixo que consegue despertar ódio, pena, e outros sentimentos mesquinhos, a partir do momento em que a pessoa escolhida já não é perfeita como a anterior, e deixa de ser a marionete dela... Pessoas que são podres e pobres, incapazes de enxergar o quão são perversas, imaturas e emocionalmente atrasadas. Pedem aos Deuses um amor, mas vivem em meio às sombras; pedem um amor, mas que esse amor seja do jeito que eles querem, e de preferência uma pessoa que seja facilmente enganável, pois esses seres acham que o melhor da vida é isso: fazer as pessoas de marionetes, afinal, tem gente que acha que é Anúbis, que pode colocar o coração dos outros na balança. Gente que acha lícito amar duas ou mais pessoas ao mesmo tempo,enganando ambas de forma canalha. Gente que acha que tem conhecimento ou sabedoria suficientes para discernir quem presta e quem não presta... Gente que acha que pode estabelecer comparações, que acha que é certo ter atitudes dignas de gente porca e sair impune, falando de amor e das estações trazendo surpresas... Lógico! Sempre é tempo de recomeçar! Dane-se quem ficou pra trás, para quem só olha o próprio umbigo. Mas acredito que a vida é redonda... assumo minhas responsabilidades e os meus erros, mas também creio que nada passa incólume frente à Nêmesis celeste que a tudo vê. E do mesmo modo que ela, tenho todo o tempo do mundo para esperar a hora de descontar moeda por moeda, sem abatimento algum. Sendo justo ou injusto, o mau nome é o que está grafado na placa da memória dos injustos culpados, o bem escorre como cinzas pelas poeiras dos tempos. Se sendo bom, nos dão a fama de maus, que eu seja mau, para ser mesmo assustador! Quem deve teme... E tem mais é que temer, mesmo... Afinal, tudo tem retorno. A colheita é livre, mas a semeadura é obrigatória... E que mal tem quando os "maus" resolvem dar uma ajuda ao destino, adiantando certos atos de justiça? 

Piedade é pra cristão, é pra gente que vai no centro tomar passe como se fosse hóstia, mas sem se preocupar que tipo de atitude tem na vida cotidiana, se fazendo de vítima o tempo todo, como se tivessem mesmo a pior vida do mundo.... Enfim, é tanta patifaria que eu nem tenho o que dizer. Se gosta tanto de reclamar, nada mais justo darmos motivos reais para isso. 

Eu assumo que vim da escuridão... que todos viemos... mas apenas vejo que a treva serve para vermos como a luz é boa, e mesmo a sombra serve para vermos que existe luz e existe treva, e eu é que tenho que saber como ando entre esses mundos, e como escolho meus mundos... Acho que é por aí. Sei que certas trevas me mostraram algumas coisas de forma tão contundente que eu já saberia reconhecer certas patifarias medíocres a quilômetros de distância. Agradeço a isso, mas não isento quem faz coisas erradas... e aqui estou. Quero cada moeda na hora certa. Quero parar e esperar, como a naja que dorme de dia e espera a noite sem lua para dar seu bote... E que seja um bote fatal... Para quê fingir? Deixo isso para os fracos, os eternos pseudo-sobreviventes das mazelas e injustiças que eles mesmos criam. Eles fingem, se fazem de bonzinhos... Eu não preciso disso. Pouco me importa o julgamento desses imbecis. Tenho todo o tempo do mundo... 

Para ti, mademoiselle...

Me bateu uma saudade de seu ar refinado, de seu sotaque afrancesado, da ironia fina do seu olhar... Lembrei de ti, minha querida! 

Uma música bem gostosa pra você dançar e criar, tirada de uma mega produção canadense chamada "Don Juan"... Charme total, a sua cara. (risos)

ZOLTAN E NAHEMA... parte IV

Os boêmios se tranquilizaram e Nahema ordenou a um jovem que fosse avisar Zoltan que o perigo havia passado, e que já podiam retornar. Só que o destino urdiu suas tramas, interligando os caminhos do Bispo de Paris e de Pièrre-Le-Centaure. Zoltan estava tão seguro de si mesmo e dos bruxedos da irmã que cavalgava tranquilamente. Centauro, na garupa, estava mais apreensivo. 

- Vamos a Paris? - fez o circense, divertido. - Estou com saudade de certos becos...

Pièrre deu risada.

-  Sabes que não podemos. Se por lá eu aparecesse, seria preso com certeza. E não quero deixar uma vida que aprendi a amar. 

- Então podemos procurar uma nascente, e nos banharmos! Para tirar as energias imundas vindas do Bispo! 

Tudo aconteceu muito rápido, Estavam na pequena estrada, quando uma comitiva surgiu a toda brida, atrás deles. Inspirado talvez por gênios perversos, o Bispo seguiu a direção indicada por Nahema, e ao longe, surpreendeu Centauro e Zoltan. Reconhecendo o Bispo à frente daquele destacamento de homens, Zoltan esporeou o cavalo e se embrenhou no bosque. O Bispo, em sua montaria, seguiu-lhe o encalço, enquanto o seu auxiliar tentava inutilmente acompanhar-lhe. A escolta, cerca de duzentos metros atrás, não compreendeu o rompante do padre, que, como um alucinado impulsionado por uma mola, partiu à frente deles, seguindo de forma tão perigosa e sem proteção nenhuma para enfrentar um bandido procurado! Será que ele se achava Deus?! Estavam fartos, aquele destacamento havia tido apenas prejuízos, a missão era inútil, pois era obrigação do Rei, e não daquele Bispo que os tratava de forma tão impertinente. 

Em meio à perseguição, mais e mais o Bispo se distanciava dos guardas e de seu escudeiro. Centauro disse a Zoltan:

- Ele está cada vez mais próximo, porém só. Todos os que o acompanharam se dispersaram. 

- Vou matá-lo. Após a ponte, vou parar o cavalo, apear e atirar nesse maldito. É ele ou nós. E até descobrirem, já estaremos bem longe daqui. Teremos de enterrá-lo na mata. - e enquanto idealizava esse plano de emergência, Zoltan teve singular idéia, e mudou de rumo, esporeando ainda mais o cavalo. 

Centauro nada disse, consentindo. Não havia mais o que fazer. O Bispo, em sua sede de vingança, nada mais enxergava à sua frente, apenas a sagrada taça, Centauro e Marie pendurados na forca e o acampamento circense em chamas. Viu quando os fugitivos cruzaram uma pequena e antiga ponte que conduzia a um povoado. Estava próximo! Ia chegar naquela aldeia fazendo grande alarme, e eles seriam presos! Qualquer cidadão de bem se negaria a dar asilo a fugitivos da Igreja, ladrões de relíquias santas! Estava tão acostumado a usar suas insígnias episcopais para abrir portas! Não viu, porém, que o cavalo pisou em falso ao cruzar a mesma ponte, derrubando-o e fazendo com que rolasse ribanceira abaixo. O Bispo não teve sequer tempo de fazer uma oração para se despedir da vida e encomendar a própria alma a Deus. A queda não foi tão grande, mas a pancada na cabeça de encontro às pedras foi fatal. 

Centauro apenas ouviu seu grito, e Zoltan freou a cavalgadura. Apearam, e o boêmio sacou a arma, em atitude defensiva. Voltaram alguns passos, na direção do pequeno ribeiro que passava abaixo da tal ponte antiga, e encontraram o Bispo caído, um filete de sangue escorrendo de sua cabeça, tingindo de vermelho as águas tranquilas. Do cavalo dele, nem sinal. 

- Será que ele morreu, Zoltan?

O egípcio levantou a sobrancelha:

- Espero que sim. Pois ao menos me economiza a bala, e nós não nos complicamos. Foi um acidente. Creio que o demônio veio buscar um dos seus mais fiéis servidores... - e gargalhou. 

CONTINUA...


quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

ZOLTAN E NAHEMA... parte III

O boêmio estremeceu. Conhecia bem aquele ritual, onde o fetiche permanecia entre as brasas sem se consumir, e da mesma forma acontecia com o ser a quem o feitiço era destinado, que ardia em febre enquanto durasse a força impregnada ali. Zoltan se preocupou deveras. Nahema garantiu-lhe que nada aconteceria com a caravana. Levou-o ao outro extremo da clareira, onde mostrou a ele um espaço no chão. Um círculo com uma estrela-de-cinco-pontas, dentro da qual estava desenhado o símbolo pessoal daquele grupo. Compondo o feitiço de proteção, haviam outros elementos que Zoltan não viu. Ela ainda pegou uns ramos de ervas aromáticas, queimou na chama da tocha e passou a fumaça em círculos pelo ritual, assoprando-as e recitando um encantamento que pedia que as névoas cobrissem o acampamento dos maus olhos do Bispo. 

Zoltan se tranquilizou. Sabia que nada aconteceria. Despertou Pièrre e saiu com ele dali o mais rápido possível. Partiram a cavalo, ainda de madrugada. Quando a febre cedeu, o Bispo se reanimou e vestiu sua melhor roupa, e foi com grande tumulto e empáfia que reuniu o pequeno exército para a sua santa missão. A idéia era capturar o bandido Centauro e aprisionar também o seu cúmplice, que o havia ocultado. Atearia fogo na caravana circense, expulsando aqueles mendigos errantes dali. À tarde, rezaria sua solene missa de forma truinfal, divulgando a prisão dos ladrões da sagrada relíquia e expondo-os às exprobrações do populacho, que se quedaria enraivecido. E em Paris completaria a sua vingança, pendurando no cadafalso aquele árabe desgraçado, juntamente com seu amante boêmio e a maldita rameira Marie du Pax. 

Pela estrada, o Bispo estava tão imerso em seus planos de vingança que não conseguia pensar em outra coisa. Parou frente ao acampamento, os homens armados o escoltavam, e antes que os errantes pudessem tomar qualquer atitude, tudo foi revirado. E eles se desesperaram, alguns homens tentaram a defesa, e uma luta começou entre a Guarda e os boêmios. Nada foi achado. Zoltan e Centauro há muito haviam deixado o local... Os próprios guardas, ao verem que tudo estava na mais perfeita ordem, e que mulheres e crianças choravam assustadas, acharam que o Bispo estava fora de si. Podia ter confundido com um dos errantes o tal ladrão. Eles eram tão parecidos entre si, como aquele padre louco podia ter tanta certeza? O seu escudeiro era um parvo, tão inútil como ele próprio, como confiar?

- Senhor Bispo! - disse-lhe Nahema, fingindo um ar de fé. - Aqui nunca esteve quem procuras. Deves estar nos confundindo com a caravana que aqui estava até ontem...

O Bispo se irritou:

- Não sejas cínica, sua egípcia imunda! Ainda esses dias te vi, aqui nesse mesmo lugar, a dançar como uma perdida com um dos homens que procuro!

Nahema começou a chorar copiosamente.

- Sou tão devota da Virgem, Senhor... Admiro tanto a Igreja e respeito seus servidores... Por que dizeis que sou perdida? Acaso não sabes que vivemos em peregrinação? A Virgem também não foi errante, quando perseguida por Herodes? Eu tenho culpa de ter nascido pária? Amo a Deus!

Face as lágrimas tão "sinceras" da jovem, o Bispo contemporizou:

- Eu sei, filha. Me perdões. Mas eu te vi com o homem que procuro.

- Impossível... - e ela pensou um pouco, antes de falar: - A menos que me tenhas confundido com minha irmã. Minha mãe teve duas filhas idênticas, de uma só vez. Eu, que sou Nazira, e ela, que é Najara. Ela é casada, e estava com o seu grupo circense aqui até poucos dias. Somos inocentes!

Ela falava com tanta ênfase, e entre tantas lágrimas, e invocando tantos santos, que o Bispo se convenceu. Era noite e ele podia mesmo ter confundido as coisas. Aquele excesso de cores em meio à parca luz tê-lo-ia confundido. E em dois dias, eles podiam mesmo ter se evadido dali. Se as caravanas eram de parentes, algo comum nessas malditas trupes de circo, isso era bem possível. Não podia perder tempo. Se corresse com os homens, ainda os encontraria na estrada, ou em alguma aldeia logo a frente. 

- Sabes para onde eles seguiram?

- Para o sul...

Ele pensou: então foram para o norte. Essa egípcia infeliz é uma idiota, mas nunca entregaria a própria família. Virou as costas e deu ordem aos homens para que se afastassem, pegariam a estrada. Nahema chamou-lhe:

- Senhor Bispo...

Ele olhou para trás:

- Dize.

- Sua benção?

- Que seja! Deus te abençõe, filha! - e fez um sinal-da-cruz na direção da boêmia, parada de mãos postas em oração, à sua frente. Olhos fechados e expressão compungida, ela fez o pelo-sinal e suspirou. 

Assim que eles sumiram na estrada, ela pôs as mãos na cintura e gargalhou alto:

- Lerdo. Imbecil! É tão fácil tapear esses idiotas, ahahahahahahahahahahahahah...

Tirou das dobras dos babados da saia uma cebola, aberta, que atirou longe. E foi até onde estava o boneco do Bispo. Retirou-o da panela, entre conjuros vários, e abriu-lhe a cabeça de pano, esvaziando todo o seu conteúdo. Atirou tudo às chamas da fogueira, gargalhando alto. 

- Está feito! Quebrado o vínculo com esse animal. A partir de agora, estou rompendo as cadeias que ligam minha magia à essa pessoa. E que seja o que o destino escrever a ele, vida ou morte!

(CONTINUA...)

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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

MOMENTO: NOSTALGIA NOTURNA...

Uma música da minha infância... Que me dá uma nostalgia enorme... Fim de noite... (risos)

domingo, 21 de fevereiro de 2010

ZOLTAN E NAHEMA... parte II

Centauro gostava da vida nômade do circo, já estava aprendendo a se manter, criando seus próprios números para se apresentar com eles. Aos poucos, ia vencendo a desconfiança do bando, que no início lhe votava uma indiferença quase hostil. Seu talento para a arte fez com que os saltimbancos começassem a admirá-lo, e a aceitá-lo como igual naquela difícil vida mambembe. 

Por sua vez, o Bispo, oculto entre as folhagens e arbustos, acompanhado do seu fiel olheiro, a tudo observava, estarrecido. Gente do inferno, praga e escória da humanidade! Eram felizes! Por um momento, por um lapso de segundo, o Bispo teve um repente de consciência e viu que ia cometer uma barbaridade, matando criaturas inocentes, sendo que até velhos e crianças haviam ali. Pessoas que viviam sem-eira-nem-beira levando distração com sua arte, e que, sem saber do dia seguinte, gozavam naquele instante de toda a alegria que lhes brotava da alma. Por um instante, pensou em abandonar o vil projeto, em esquecer aquilo tudo e deixar a França. Podia se estabelecer em Roma, onde talvez tudo fosse mais fácil. Como queria se libertar daquele fogo feroz do ódio que o consumia e punha em brasas todo o seu ser! Será que poderia ser feliz sem esse ódio?! Porém, como uma brisa, ou como um simples caniço em meio à tempestade, essa idéia passou e o Bispo cedeu ao seu egoísmo descentrado, completamente sem forças para resistir aos seus impulsos e mudar. Estava obstinado. Fora até ali para capturar o criminoso, não sairia daquela maldita aldeia sem ele, custasse o que custasse!

Se afastaram dali, sem serem percebidos pelos boêmios, e o Bispo ainda se mantinha pensativo, uma luzinha trêmula, como uma fagulha, insistia em se manter em seu peito, incitando-o a abandonar tão temerário projeto. Ou a simplesmente capturar Centauro sem envolver ou prejudicar aquelas pessoas todas. De volta à casa paroquial, cedida pelo vigário da aldeia, a noite passou lenta para o Bispo de Paris... Seu sono era entremeado por pesadelos, via-se perseguido por sombras negras e sedentas de vingança, , cobrando-lhe coisas que ele nem sabia dever. Era como se ele estivesse agora sendo o réu num dos inúmeros tribunais que presidira. Ao fim do sonho mau, entre torturas atrozes e desesperos mil, uma luz branca surgiu do alto, e uma voz estentórica advertiu:

- Martinho! - no sonho, o Bispo se chocou. Desde a morte dos pais, ninguém o chamava pelo seu nome de batismo. 

Ele se sentiu confuso, olhou para cima, na tentativa de identificar a origem do facho iluminado. A voz repetiu, ainda mais grave:

- Martinho!

O Bispo não identificou, mas sabia que a voz vinha de dentro do clarão que ofuscava suas vistas.

- Te arrependas, Martinho! Pára e pensa, reflete de forma impessoal sobre o que fizestes a vida toda, pede perdão a Deus e a ti mesmo, pede perdão a todos os que magoastes e prejudicastes com teu egoísmo feroz! Concede a ti mesmo, para teu bem e tua melhoria, uma oportunidade de mudares de vida, de reverter tanto ódio em amor, tanta sede de poder em auxílio a teu próximo. Fazei o bem em sinal de reconhecimento à bondade divina, que tudo te concedeu, e na esperança de apagar teus erros pretéritos. Martinho, a verdade te chama! Olha para ela como num espelho, e aprende com isso a derradeira lição! 

Porém, de nada adiantou. O Bispo se manteve na mesma posição. Acordou trêmulo, banhado de suor, parecia que o excesso de luz provindo do facho ainda lhe queimava os olhos. E de certo modo, esse torpor causado pelo pesadelo foi providencial, pois desencadeou uma forte febre, que lhe atacou durante dois dias, impossibilitando-o de seguir adiante. O povo da aldeia comentou a chegada ilustre no dia seguinte, e Nahema descobriu a solene visita quando foi à rua, ler a sina dos curiosos. Sua visão estava certa, o maldito Bispo estava ali! Precisava fazer algo, e urgente! 

Na madrugada, Nahema convenceu o irmão:

- Sei que é amanhã que ele virá. Precisas deixar a caravana o mais rápido possível, com o estrangeiro.

- Não posso! Como deixar aqui desguarnecido, enquanto homens invadem nossos carroções e pilham nossos pertences? O que será de nossa mãe e dos mais velhos? Vou lutar com eles, não posso fugir daqui como um fraco! Sou o líder!

- Somos os líderes. - ela corrigiu, ferina.

- Não posso expô-los assim, Nahema! 

- Já te expusestes em demasia ao trazeres esse homem para cá.

Ele sibilou:

- O que está feito, está feito. E de nada me arrependo. Se eu e Marie não o tivéssemos salvo, ele teria sido executado como um criminoso que não é. - e vociferando com ódio: - Maldito Bispo! Era só o que me faltava! Que os nossos paguem pelos meus desvarios! Isso não pode acontecer, Nahema.

- Nada acontecerá. Fujas, e quando estiver tudo em ordem, lhe avisarei. O importante é que o maldito padre não saiba que Centauro aqui esteve o tempo todo. Se o acharem aqui, aí sim é que seremos todos postos a ferros, e sabe lá o que nos aguarda.

- Como me garantes que nada acontecerá?

Ela olhou-o como uma fera. Seus olhos brilharam, rancorosos e enigmáticos. Aquela mulher era perigosa.

- Vem comigo. - ela disse, pegando uma tocha e puxando Zoltan pela mão. 

Nahema levou-a até uma clareira próxima aos limites do acampamento. Estacou defronte a uma imensa árvore, debaixo da qual repousava uma enorme panela de cobre. Com o auxílio da tocha, ela olhou dentro dessa panela e conferiu o conteúdo. Soltou um grito:

- Depressa! O tempo está se escoando!

Zoltan não compreendeu. Nahema, então, mostrou-lhe o conteúdo da panela: um boneco de pano usando insígnias sacerdotais levemente chamuscado entre as últimas fagulhas de um monte de carvões em brasa!

- Causei uma febre no maldito para ganharmos tempo! Mas a força do ritual está se perdendo, ele deve estar se recuperando. Tem proteção dos maus gênios, que inferno!

(CONTINUA...)

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sábado, 20 de fevereiro de 2010

Oração à Deusa LAKSHMI

"Abro meu coração e meu lar com muito amor e exuberante alegria para recebê-La no meu Templo interno e no Templo da minha morada. 

Que suas bênçãos cheguem a mim trazendo a pureza da flor de lótus, a harmonia nos meus relacionamentos e a prosperidade em tudo o que eu executar com fé, entusiasmo e altruísmo. 

Que o aspecto feminino de Deus em todas as suas manifestações me tragam intuição, percepção, dedicação e receptividade, para que eu possa realizar todas as minhas atividades com alegria e felicidade. 

Que a Sua Luz me envolva dentro de um campo magnético de Abundância para que eu possa ter tudo o que necessito e expandir essa minha Prosperidade para todos. 

Amada Lakshmi, bem vinda à minha vida e ao meu lar!"

"Om Shrim Maha Lakshimiai Namah"
"Eu Saúdo a Deusa da Beleza, do Amor, e da Prosperidade"

FUERZA GITANA

(...) Sarita saiu, e Juan aproveitou a presença de Karlos para ensaiar uma dança que estava montando para a próxima apresentação na taverna. Perto do carroção, o jovem guitarrista sentou-se, e iniciou uma música de toque triste e singelo, mas com uma profundidade imensa. Da mesma forma, no tablado improvisado, Juan também começou a sua dança, como se estivesse se relembrando de um pesar, ou se sentindo impossibilitado de lutar contra o futuro. Depois da introdução, na qual o cigano caminhava pelo tablado, cada passo no mesmo ritmo de cada acorde, de cada nota, a música se tornou mais rápida, mais compassada. E acompanhando essa densidade toda, o sapateado se tornava mais marcado, mais pesado, como se manifestasse revolta. Era uma espécie de diálogo entre o violão e o sapateado. 

Ao fundo, Zoraya assistia à dança de Juan, absorta nos menores detalhes. Lembrava-se com infinito carinho de tê-lo ensinado os primeiros passos. Os primeiros passos para caminhar, e depois disso, para dançar. De onde estava, gritou para o neto:

- Juan! Aire! Aire! Faças o golpe com mais força!

Ele, sem parar, respondeu à velha:

- Estou batendo, abuela. A marcação dos pés condiz com os acordes. Está certo!

- Não, Juan. Está com uma pequena diferença, ela é quase imperceptível, mas existe. Corrija-a, e não te esqueças do ritmo: um, dois, três, um, dois. Um, dois, três, um, dois. Ida, volta. Volteio, palma! Corrijas a postura! Altivo! Forte!

O cigano reiniciou a dança, com o sapateado mais pesado, mais marcado, os braços erguidos, a expressão densa e sofrida. Karlos também modificou o tempo, acalmando o ritmo, atento para que a sincronia de ambos ficasse perfeita.

- Mais força, Juan! Para atraires os poderes da terra, e para que ela filtre as tuas energias!

- Abuela! Os pés são meus! Deixa-me dançar como sei, deixa-me ouvir a música e fazer com que ela se torne parte minha!

Zoraya, que já esperava pela resposta dada, sorriu. Altaneira, chegou perto de Karlos e afastou delicadamente Juan para um canto. O jovem músico reiniciou a melodia, e a velha bailou-a com graça e leveza, mas com a força necessária à expressão de dor que aquele baile por seguiriya exigia... Bailava com o seu mantón verde franjado, seus braços erguidos pareciam asas que buscavam a liberdade do céu, e seus pés pareciam presos à terra, incitando a revolta da música, a revolta daquele ritmo que apenas falava de dor, saudade e prisão... Chamou Juan, com um gesto, e começou a acompanhar seus passos, corrigindo-o. O jovem sorriu ante a alegria da velha em poder ensiná-lo, e arrependeu-se por ter-lhe respondido mal. Era um tesouro tê-la ali, ensinando a arte do baile, o sentir, a resgatar o que a música gritava, transformando essa melodia em gestos. Dando vida à alma dos antepassados, através de seu legado mais importante: el duende! Juan se esmerou em dançar com ela havia ensinado, em marcar bem o movimento e a batida dos pés, em manter a pose segura e altiva, como se estivesse se impondo a todos os que discriminam os gitanos, todos os dias. Afinal, era uma seguiriya... Abraçou a avó com carinho, e ela explicou-lhe:

- Quando fores bater o pé, lança para a terra tudo o que te aflige. Peças à ela que tua vida sempre floresça, e que tuas energias sejam filtradas. Peças estabilidade e coragem para enfrentar esse mundo que não gosta dos nossos, e que não suporta nada que se seja diferente. Quando levantares os braços, lembra-te que isso é um pedido ao Pai Celeste, e um agradecimento à benção de poder dançar. Os braços pro alto representam a certeza de que é para a frente que se anda, que devemos ter o pés bem fincados na terra, mas que a mente é livre para buscar e alcançar o infinito, já que somos livres! Compreendes a força de nossa dança?

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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

ZOLTAN E NAHEMA... parte I

(...) Chegaram ao acampamento. Viram os cavalos, as carroças, as tendas... Os boêmios estavam sentados em volta de uma fogueira. Próximo a um carroção, idosa mulher de enigmático olhar contava algo a algumas crianças, que lhe escutavam com grande atenção. Num canto, um senhor com um acordeon; próximos, estavam seus filhos, todos parecidos entre si e com ele. Um com um banjo, outro com um violino e o terceiro com um pequeno tambor, que por vezes trocava por uma flauta. Todos cantavam numa língua gutural e exótica, totalmente desconhecida. Uma certa música começou, a princípio lenta e cadenciada. Ao reconhecerem-na, alguns boêmios, que riam às gargalhadas, taças de bebida entre os dedos, se puseram a bater palmas, e a gritar:

- Zoltan! Zoltan! Zoltan! Zoltan!

E só se calaram quando, escancarando a entrada de uma das tendas, um boêmio apareceu. Belíssimo, a tez queimada pelo sol contrastava com o cobre dos cabelos e da barba, os olhos verde-escuros pareciam olhos de serpente. Vestia uma bela camisa de seda amarela, e todo o seu ser rebrilhava de jóias e mistérios. Sua aparição brusca causou ainda mais gritos de comemoração e aplausos. Andando no ritmo da música, o jovem passava atirando beijos às moças, distribuindo sorrisos aos músicos, flertava até com os casais. Abraçava as crianças, assentia com a cabeça aos idosos... Zoltan se posicionou no meio dos expectantes e começou a dançar. A postura arrogante, os braços erguidos, o caminhar firme, os pulos selvagens, o olhar que evocava todo o mistério de uma raça oriunda dos tempos orientais antigos...

À medida que a música se tornava mais célere, o povo acompanhava com palmas e gritos acalorados. Um pandeiro foi jogado para Zoltan, que, nos passos improvisados de sua dança, batia com ele ritmada e freneticamente. A um sinal dele, uma jovem de rara e estranha beleza, olhar bravio como o de uma fera, levantou-se e colocou-se à sua frente, arrogante, mãos à cintura, postura altiva em atitude expectante. Zoltan convidou-a a dançar, com um sorriso. Ela entrou no meio da roda, em volta do fogo, agitando febrilmente a saia rodada e escandalosamente colorida. Havia força e fúria em sua dança selvagem, aquela boêmia transbordava sensualidade e lascívia. O bailado dos dois parecia um duelo de forças que se enfrentam e ao mesmo tempo se complementavam. A moça tinha os mesmos olhos verdes de serpente, os cabelos eram um pouco mais escuros que os de seu par, mas pela semelhança de ambos, era claro que eram irmãos, na dança se portavam como tal.

A música se intensificava, se transformava numa sarabanda infernal, linda e única, como único era aquele momento. No último acorde, o fim da dança e os gritos ruidosos do povo. Ainda se mantinham nos rostos afogueados do casal de irmãos o brilho febril dos olhos e o sorriso malicioso, cheio de perigos mil. Abraçaram-se em sinal de agradecimento mútuo, e foram sentar-se, para comer e beber, e aproveitar o resto da noite. Outros casais e jovens sozinhas puseram-se a dançar, uma nova música inundou o ar.

- Centauro não tirava os olhos de ti enquanto bailavas. - ela começou, ferina.

- Não digas isso. Podem ouvir-te e compreender mal o tom de teu comentário desairoso. - ele censurou, levemente, ao mesmo tempo que em seu íntimo sentia uma ponta de satisfação que tentava ocultar. - Ele gosta de nossa dança. Quem garante que não olhava para ti?

Ela gargalhou, irônica:

- Não sejas tolo. Ele já te observava bem antes de eu entrar, e mesmo após, te devorava com os olhos. Pusestes algum feitiço nesse estrangeiro?!

Zoltan não respondeu. Ante o silêncio, que a moça interpretou como uma afirmativa, ele considerou:

- Nahema, Nahema! Estás enciumada?

Nahema se fez rubra. Empertigou-se toda e respondeu, altiva e segura como uma criança birrenta:

- De modo algum. É que os nossos já comentam. Esses dias, escutei a tua Letícia insinuar algo. - e fez uma cara de nojo, referindo-se à cunhada, que heroicamente sempre havia superado as infidelidades de Zoltan. - Tomes cuidado, meu irmão. Ela anda estranha ultimamente, tenho a certeza de que te deixará. Penses nisso, ou perderás teus filhos! Achas acaso que as paixões loucas a que te entregas compensam certas perdas? 

- Jamais.

Nahema silenciou, mas sem entender se essa frase dava conta de que ele concordava com o raciocínio dela, ou se era uma negação de que ele poderia ser abandonado por aquela antipática, que ele recolhera quase que da rua, uma mulher do povo, que não era artista como eles! Uma camponesa, católica, que horror! Odiava a cunhada, mas se preocupava com o irmão e com os sobrinhos. Ela continuou, vendo que ele suspirou, pensativo:

- Deverias ter te casado com Madeleine. É berrante o teu apreço por ela, e é imenso o amor dela por ti. Somente ela compreenderia e aceitaria a forma louca como vives. Todos os que os olham sabem que foram talhados um para o outro. Quando tu e ela dançam, o povo enlouquece. Se pedisses, até pagariam. Eu não gosto dela, mas sou obrigada a concordar que ela é o único par possível para ti. E agora, à revelia de tudo o que estamos acostumados a ver, tu trazes do nada um estrangeiro, e com ele vives como se fossem... irmãos!

- Tu és minha irmã. Apenas e unicamente tu, já que fomos gerados no mesmo ventre e ao mesmo tempo. Estás satisfeita?

Ela sorriu, enquanto ele lhe afagava a fronte.

- Nunca pensei que os desvarios do meu coração te preocupassem tanto, Nahema! - ele sorriu, irônico. - Mas deixemos eles para lá. Falemos agora dos teus.

A boêmia beliscou-o de leve:

- Não me provoques. O que eu queria dizer-te antes de tudo é que talvez seja perigoso esse Centauro, ou Pièrre, não sei, estar entre nós, sendo que sabemos que ele é procurado a peso de ouro.

- E queres vendê-lo? - Zoltan se ofendeu.

- Jamais faria isso. Por tua causa, e não por ele. Apenas te digo que sonhei que a caravana seria incendiada, e um homem da Igreja nos punha a ferros, depois de prender-te e ao Centauro. Sabes que tenho o dom da visão, eu nunca errei!

Zoltan estremeceu. Seu semblante se tornou grave. Era verdade: toda vez que Nahema previa algo com tanta ênfase, era fato que acabava por acontecer. E tanto assim era que o povo a temia, pois nunca se sabia se o fato desafortunado se sucedera por conta do desejo dela, ou se simplesmente era um aviso. 

- Nahema! Se o Bispo estivesse perto daqui, por certo Marie nos mandaria avisar. 

- Confias demais nessa rameira.

Um único olhar de Zoltan para Nahema, igualando-a a Marie pôs fim à conversa. Mudaram de assunto, e depois que acabaram as músicas, se recolheram às suas barracas. Mas é lógico que Zoltan, assim que amanhecesse tomaria todas as providências necessárias para evitar infortúnios. (...)

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Esse texto faz parte de uma das tramas que compõem um romance no qual estou trabalhando... CONTINUA... (risos)