quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

ZOLTAN E NAHEMA... parte III

O boêmio estremeceu. Conhecia bem aquele ritual, onde o fetiche permanecia entre as brasas sem se consumir, e da mesma forma acontecia com o ser a quem o feitiço era destinado, que ardia em febre enquanto durasse a força impregnada ali. Zoltan se preocupou deveras. Nahema garantiu-lhe que nada aconteceria com a caravana. Levou-o ao outro extremo da clareira, onde mostrou a ele um espaço no chão. Um círculo com uma estrela-de-cinco-pontas, dentro da qual estava desenhado o símbolo pessoal daquele grupo. Compondo o feitiço de proteção, haviam outros elementos que Zoltan não viu. Ela ainda pegou uns ramos de ervas aromáticas, queimou na chama da tocha e passou a fumaça em círculos pelo ritual, assoprando-as e recitando um encantamento que pedia que as névoas cobrissem o acampamento dos maus olhos do Bispo. 

Zoltan se tranquilizou. Sabia que nada aconteceria. Despertou Pièrre e saiu com ele dali o mais rápido possível. Partiram a cavalo, ainda de madrugada. Quando a febre cedeu, o Bispo se reanimou e vestiu sua melhor roupa, e foi com grande tumulto e empáfia que reuniu o pequeno exército para a sua santa missão. A idéia era capturar o bandido Centauro e aprisionar também o seu cúmplice, que o havia ocultado. Atearia fogo na caravana circense, expulsando aqueles mendigos errantes dali. À tarde, rezaria sua solene missa de forma truinfal, divulgando a prisão dos ladrões da sagrada relíquia e expondo-os às exprobrações do populacho, que se quedaria enraivecido. E em Paris completaria a sua vingança, pendurando no cadafalso aquele árabe desgraçado, juntamente com seu amante boêmio e a maldita rameira Marie du Pax. 

Pela estrada, o Bispo estava tão imerso em seus planos de vingança que não conseguia pensar em outra coisa. Parou frente ao acampamento, os homens armados o escoltavam, e antes que os errantes pudessem tomar qualquer atitude, tudo foi revirado. E eles se desesperaram, alguns homens tentaram a defesa, e uma luta começou entre a Guarda e os boêmios. Nada foi achado. Zoltan e Centauro há muito haviam deixado o local... Os próprios guardas, ao verem que tudo estava na mais perfeita ordem, e que mulheres e crianças choravam assustadas, acharam que o Bispo estava fora de si. Podia ter confundido com um dos errantes o tal ladrão. Eles eram tão parecidos entre si, como aquele padre louco podia ter tanta certeza? O seu escudeiro era um parvo, tão inútil como ele próprio, como confiar?

- Senhor Bispo! - disse-lhe Nahema, fingindo um ar de fé. - Aqui nunca esteve quem procuras. Deves estar nos confundindo com a caravana que aqui estava até ontem...

O Bispo se irritou:

- Não sejas cínica, sua egípcia imunda! Ainda esses dias te vi, aqui nesse mesmo lugar, a dançar como uma perdida com um dos homens que procuro!

Nahema começou a chorar copiosamente.

- Sou tão devota da Virgem, Senhor... Admiro tanto a Igreja e respeito seus servidores... Por que dizeis que sou perdida? Acaso não sabes que vivemos em peregrinação? A Virgem também não foi errante, quando perseguida por Herodes? Eu tenho culpa de ter nascido pária? Amo a Deus!

Face as lágrimas tão "sinceras" da jovem, o Bispo contemporizou:

- Eu sei, filha. Me perdões. Mas eu te vi com o homem que procuro.

- Impossível... - e ela pensou um pouco, antes de falar: - A menos que me tenhas confundido com minha irmã. Minha mãe teve duas filhas idênticas, de uma só vez. Eu, que sou Nazira, e ela, que é Najara. Ela é casada, e estava com o seu grupo circense aqui até poucos dias. Somos inocentes!

Ela falava com tanta ênfase, e entre tantas lágrimas, e invocando tantos santos, que o Bispo se convenceu. Era noite e ele podia mesmo ter confundido as coisas. Aquele excesso de cores em meio à parca luz tê-lo-ia confundido. E em dois dias, eles podiam mesmo ter se evadido dali. Se as caravanas eram de parentes, algo comum nessas malditas trupes de circo, isso era bem possível. Não podia perder tempo. Se corresse com os homens, ainda os encontraria na estrada, ou em alguma aldeia logo a frente. 

- Sabes para onde eles seguiram?

- Para o sul...

Ele pensou: então foram para o norte. Essa egípcia infeliz é uma idiota, mas nunca entregaria a própria família. Virou as costas e deu ordem aos homens para que se afastassem, pegariam a estrada. Nahema chamou-lhe:

- Senhor Bispo...

Ele olhou para trás:

- Dize.

- Sua benção?

- Que seja! Deus te abençõe, filha! - e fez um sinal-da-cruz na direção da boêmia, parada de mãos postas em oração, à sua frente. Olhos fechados e expressão compungida, ela fez o pelo-sinal e suspirou. 

Assim que eles sumiram na estrada, ela pôs as mãos na cintura e gargalhou alto:

- Lerdo. Imbecil! É tão fácil tapear esses idiotas, ahahahahahahahahahahahahah...

Tirou das dobras dos babados da saia uma cebola, aberta, que atirou longe. E foi até onde estava o boneco do Bispo. Retirou-o da panela, entre conjuros vários, e abriu-lhe a cabeça de pano, esvaziando todo o seu conteúdo. Atirou tudo às chamas da fogueira, gargalhando alto. 

- Está feito! Quebrado o vínculo com esse animal. A partir de agora, estou rompendo as cadeias que ligam minha magia à essa pessoa. E que seja o que o destino escrever a ele, vida ou morte!

(CONTINUA...)

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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

MOMENTO: NOSTALGIA NOTURNA...

Uma música da minha infância... Que me dá uma nostalgia enorme... Fim de noite... (risos)

domingo, 21 de fevereiro de 2010

ZOLTAN E NAHEMA... parte II

Centauro gostava da vida nômade do circo, já estava aprendendo a se manter, criando seus próprios números para se apresentar com eles. Aos poucos, ia vencendo a desconfiança do bando, que no início lhe votava uma indiferença quase hostil. Seu talento para a arte fez com que os saltimbancos começassem a admirá-lo, e a aceitá-lo como igual naquela difícil vida mambembe. 

Por sua vez, o Bispo, oculto entre as folhagens e arbustos, acompanhado do seu fiel olheiro, a tudo observava, estarrecido. Gente do inferno, praga e escória da humanidade! Eram felizes! Por um momento, por um lapso de segundo, o Bispo teve um repente de consciência e viu que ia cometer uma barbaridade, matando criaturas inocentes, sendo que até velhos e crianças haviam ali. Pessoas que viviam sem-eira-nem-beira levando distração com sua arte, e que, sem saber do dia seguinte, gozavam naquele instante de toda a alegria que lhes brotava da alma. Por um instante, pensou em abandonar o vil projeto, em esquecer aquilo tudo e deixar a França. Podia se estabelecer em Roma, onde talvez tudo fosse mais fácil. Como queria se libertar daquele fogo feroz do ódio que o consumia e punha em brasas todo o seu ser! Será que poderia ser feliz sem esse ódio?! Porém, como uma brisa, ou como um simples caniço em meio à tempestade, essa idéia passou e o Bispo cedeu ao seu egoísmo descentrado, completamente sem forças para resistir aos seus impulsos e mudar. Estava obstinado. Fora até ali para capturar o criminoso, não sairia daquela maldita aldeia sem ele, custasse o que custasse!

Se afastaram dali, sem serem percebidos pelos boêmios, e o Bispo ainda se mantinha pensativo, uma luzinha trêmula, como uma fagulha, insistia em se manter em seu peito, incitando-o a abandonar tão temerário projeto. Ou a simplesmente capturar Centauro sem envolver ou prejudicar aquelas pessoas todas. De volta à casa paroquial, cedida pelo vigário da aldeia, a noite passou lenta para o Bispo de Paris... Seu sono era entremeado por pesadelos, via-se perseguido por sombras negras e sedentas de vingança, , cobrando-lhe coisas que ele nem sabia dever. Era como se ele estivesse agora sendo o réu num dos inúmeros tribunais que presidira. Ao fim do sonho mau, entre torturas atrozes e desesperos mil, uma luz branca surgiu do alto, e uma voz estentórica advertiu:

- Martinho! - no sonho, o Bispo se chocou. Desde a morte dos pais, ninguém o chamava pelo seu nome de batismo. 

Ele se sentiu confuso, olhou para cima, na tentativa de identificar a origem do facho iluminado. A voz repetiu, ainda mais grave:

- Martinho!

O Bispo não identificou, mas sabia que a voz vinha de dentro do clarão que ofuscava suas vistas.

- Te arrependas, Martinho! Pára e pensa, reflete de forma impessoal sobre o que fizestes a vida toda, pede perdão a Deus e a ti mesmo, pede perdão a todos os que magoastes e prejudicastes com teu egoísmo feroz! Concede a ti mesmo, para teu bem e tua melhoria, uma oportunidade de mudares de vida, de reverter tanto ódio em amor, tanta sede de poder em auxílio a teu próximo. Fazei o bem em sinal de reconhecimento à bondade divina, que tudo te concedeu, e na esperança de apagar teus erros pretéritos. Martinho, a verdade te chama! Olha para ela como num espelho, e aprende com isso a derradeira lição! 

Porém, de nada adiantou. O Bispo se manteve na mesma posição. Acordou trêmulo, banhado de suor, parecia que o excesso de luz provindo do facho ainda lhe queimava os olhos. E de certo modo, esse torpor causado pelo pesadelo foi providencial, pois desencadeou uma forte febre, que lhe atacou durante dois dias, impossibilitando-o de seguir adiante. O povo da aldeia comentou a chegada ilustre no dia seguinte, e Nahema descobriu a solene visita quando foi à rua, ler a sina dos curiosos. Sua visão estava certa, o maldito Bispo estava ali! Precisava fazer algo, e urgente! 

Na madrugada, Nahema convenceu o irmão:

- Sei que é amanhã que ele virá. Precisas deixar a caravana o mais rápido possível, com o estrangeiro.

- Não posso! Como deixar aqui desguarnecido, enquanto homens invadem nossos carroções e pilham nossos pertences? O que será de nossa mãe e dos mais velhos? Vou lutar com eles, não posso fugir daqui como um fraco! Sou o líder!

- Somos os líderes. - ela corrigiu, ferina.

- Não posso expô-los assim, Nahema! 

- Já te expusestes em demasia ao trazeres esse homem para cá.

Ele sibilou:

- O que está feito, está feito. E de nada me arrependo. Se eu e Marie não o tivéssemos salvo, ele teria sido executado como um criminoso que não é. - e vociferando com ódio: - Maldito Bispo! Era só o que me faltava! Que os nossos paguem pelos meus desvarios! Isso não pode acontecer, Nahema.

- Nada acontecerá. Fujas, e quando estiver tudo em ordem, lhe avisarei. O importante é que o maldito padre não saiba que Centauro aqui esteve o tempo todo. Se o acharem aqui, aí sim é que seremos todos postos a ferros, e sabe lá o que nos aguarda.

- Como me garantes que nada acontecerá?

Ela olhou-o como uma fera. Seus olhos brilharam, rancorosos e enigmáticos. Aquela mulher era perigosa.

- Vem comigo. - ela disse, pegando uma tocha e puxando Zoltan pela mão. 

Nahema levou-a até uma clareira próxima aos limites do acampamento. Estacou defronte a uma imensa árvore, debaixo da qual repousava uma enorme panela de cobre. Com o auxílio da tocha, ela olhou dentro dessa panela e conferiu o conteúdo. Soltou um grito:

- Depressa! O tempo está se escoando!

Zoltan não compreendeu. Nahema, então, mostrou-lhe o conteúdo da panela: um boneco de pano usando insígnias sacerdotais levemente chamuscado entre as últimas fagulhas de um monte de carvões em brasa!

- Causei uma febre no maldito para ganharmos tempo! Mas a força do ritual está se perdendo, ele deve estar se recuperando. Tem proteção dos maus gênios, que inferno!

(CONTINUA...)

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sábado, 20 de fevereiro de 2010

Oração à Deusa LAKSHMI

"Abro meu coração e meu lar com muito amor e exuberante alegria para recebê-La no meu Templo interno e no Templo da minha morada. 

Que suas bênçãos cheguem a mim trazendo a pureza da flor de lótus, a harmonia nos meus relacionamentos e a prosperidade em tudo o que eu executar com fé, entusiasmo e altruísmo. 

Que o aspecto feminino de Deus em todas as suas manifestações me tragam intuição, percepção, dedicação e receptividade, para que eu possa realizar todas as minhas atividades com alegria e felicidade. 

Que a Sua Luz me envolva dentro de um campo magnético de Abundância para que eu possa ter tudo o que necessito e expandir essa minha Prosperidade para todos. 

Amada Lakshmi, bem vinda à minha vida e ao meu lar!"

"Om Shrim Maha Lakshimiai Namah"
"Eu Saúdo a Deusa da Beleza, do Amor, e da Prosperidade"

FUERZA GITANA

(...) Sarita saiu, e Juan aproveitou a presença de Karlos para ensaiar uma dança que estava montando para a próxima apresentação na taverna. Perto do carroção, o jovem guitarrista sentou-se, e iniciou uma música de toque triste e singelo, mas com uma profundidade imensa. Da mesma forma, no tablado improvisado, Juan também começou a sua dança, como se estivesse se relembrando de um pesar, ou se sentindo impossibilitado de lutar contra o futuro. Depois da introdução, na qual o cigano caminhava pelo tablado, cada passo no mesmo ritmo de cada acorde, de cada nota, a música se tornou mais rápida, mais compassada. E acompanhando essa densidade toda, o sapateado se tornava mais marcado, mais pesado, como se manifestasse revolta. Era uma espécie de diálogo entre o violão e o sapateado. 

Ao fundo, Zoraya assistia à dança de Juan, absorta nos menores detalhes. Lembrava-se com infinito carinho de tê-lo ensinado os primeiros passos. Os primeiros passos para caminhar, e depois disso, para dançar. De onde estava, gritou para o neto:

- Juan! Aire! Aire! Faças o golpe com mais força!

Ele, sem parar, respondeu à velha:

- Estou batendo, abuela. A marcação dos pés condiz com os acordes. Está certo!

- Não, Juan. Está com uma pequena diferença, ela é quase imperceptível, mas existe. Corrija-a, e não te esqueças do ritmo: um, dois, três, um, dois. Um, dois, três, um, dois. Ida, volta. Volteio, palma! Corrijas a postura! Altivo! Forte!

O cigano reiniciou a dança, com o sapateado mais pesado, mais marcado, os braços erguidos, a expressão densa e sofrida. Karlos também modificou o tempo, acalmando o ritmo, atento para que a sincronia de ambos ficasse perfeita.

- Mais força, Juan! Para atraires os poderes da terra, e para que ela filtre as tuas energias!

- Abuela! Os pés são meus! Deixa-me dançar como sei, deixa-me ouvir a música e fazer com que ela se torne parte minha!

Zoraya, que já esperava pela resposta dada, sorriu. Altaneira, chegou perto de Karlos e afastou delicadamente Juan para um canto. O jovem músico reiniciou a melodia, e a velha bailou-a com graça e leveza, mas com a força necessária à expressão de dor que aquele baile por seguiriya exigia... Bailava com o seu mantón verde franjado, seus braços erguidos pareciam asas que buscavam a liberdade do céu, e seus pés pareciam presos à terra, incitando a revolta da música, a revolta daquele ritmo que apenas falava de dor, saudade e prisão... Chamou Juan, com um gesto, e começou a acompanhar seus passos, corrigindo-o. O jovem sorriu ante a alegria da velha em poder ensiná-lo, e arrependeu-se por ter-lhe respondido mal. Era um tesouro tê-la ali, ensinando a arte do baile, o sentir, a resgatar o que a música gritava, transformando essa melodia em gestos. Dando vida à alma dos antepassados, através de seu legado mais importante: el duende! Juan se esmerou em dançar com ela havia ensinado, em marcar bem o movimento e a batida dos pés, em manter a pose segura e altiva, como se estivesse se impondo a todos os que discriminam os gitanos, todos os dias. Afinal, era uma seguiriya... Abraçou a avó com carinho, e ela explicou-lhe:

- Quando fores bater o pé, lança para a terra tudo o que te aflige. Peças à ela que tua vida sempre floresça, e que tuas energias sejam filtradas. Peças estabilidade e coragem para enfrentar esse mundo que não gosta dos nossos, e que não suporta nada que se seja diferente. Quando levantares os braços, lembra-te que isso é um pedido ao Pai Celeste, e um agradecimento à benção de poder dançar. Os braços pro alto representam a certeza de que é para a frente que se anda, que devemos ter o pés bem fincados na terra, mas que a mente é livre para buscar e alcançar o infinito, já que somos livres! Compreendes a força de nossa dança?

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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

ZOLTAN E NAHEMA... parte I

(...) Chegaram ao acampamento. Viram os cavalos, as carroças, as tendas... Os boêmios estavam sentados em volta de uma fogueira. Próximo a um carroção, idosa mulher de enigmático olhar contava algo a algumas crianças, que lhe escutavam com grande atenção. Num canto, um senhor com um acordeon; próximos, estavam seus filhos, todos parecidos entre si e com ele. Um com um banjo, outro com um violino e o terceiro com um pequeno tambor, que por vezes trocava por uma flauta. Todos cantavam numa língua gutural e exótica, totalmente desconhecida. Uma certa música começou, a princípio lenta e cadenciada. Ao reconhecerem-na, alguns boêmios, que riam às gargalhadas, taças de bebida entre os dedos, se puseram a bater palmas, e a gritar:

- Zoltan! Zoltan! Zoltan! Zoltan!

E só se calaram quando, escancarando a entrada de uma das tendas, um boêmio apareceu. Belíssimo, a tez queimada pelo sol contrastava com o cobre dos cabelos e da barba, os olhos verde-escuros pareciam olhos de serpente. Vestia uma bela camisa de seda amarela, e todo o seu ser rebrilhava de jóias e mistérios. Sua aparição brusca causou ainda mais gritos de comemoração e aplausos. Andando no ritmo da música, o jovem passava atirando beijos às moças, distribuindo sorrisos aos músicos, flertava até com os casais. Abraçava as crianças, assentia com a cabeça aos idosos... Zoltan se posicionou no meio dos expectantes e começou a dançar. A postura arrogante, os braços erguidos, o caminhar firme, os pulos selvagens, o olhar que evocava todo o mistério de uma raça oriunda dos tempos orientais antigos...

À medida que a música se tornava mais célere, o povo acompanhava com palmas e gritos acalorados. Um pandeiro foi jogado para Zoltan, que, nos passos improvisados de sua dança, batia com ele ritmada e freneticamente. A um sinal dele, uma jovem de rara e estranha beleza, olhar bravio como o de uma fera, levantou-se e colocou-se à sua frente, arrogante, mãos à cintura, postura altiva em atitude expectante. Zoltan convidou-a a dançar, com um sorriso. Ela entrou no meio da roda, em volta do fogo, agitando febrilmente a saia rodada e escandalosamente colorida. Havia força e fúria em sua dança selvagem, aquela boêmia transbordava sensualidade e lascívia. O bailado dos dois parecia um duelo de forças que se enfrentam e ao mesmo tempo se complementavam. A moça tinha os mesmos olhos verdes de serpente, os cabelos eram um pouco mais escuros que os de seu par, mas pela semelhança de ambos, era claro que eram irmãos, na dança se portavam como tal.

A música se intensificava, se transformava numa sarabanda infernal, linda e única, como único era aquele momento. No último acorde, o fim da dança e os gritos ruidosos do povo. Ainda se mantinham nos rostos afogueados do casal de irmãos o brilho febril dos olhos e o sorriso malicioso, cheio de perigos mil. Abraçaram-se em sinal de agradecimento mútuo, e foram sentar-se, para comer e beber, e aproveitar o resto da noite. Outros casais e jovens sozinhas puseram-se a dançar, uma nova música inundou o ar.

- Centauro não tirava os olhos de ti enquanto bailavas. - ela começou, ferina.

- Não digas isso. Podem ouvir-te e compreender mal o tom de teu comentário desairoso. - ele censurou, levemente, ao mesmo tempo que em seu íntimo sentia uma ponta de satisfação que tentava ocultar. - Ele gosta de nossa dança. Quem garante que não olhava para ti?

Ela gargalhou, irônica:

- Não sejas tolo. Ele já te observava bem antes de eu entrar, e mesmo após, te devorava com os olhos. Pusestes algum feitiço nesse estrangeiro?!

Zoltan não respondeu. Ante o silêncio, que a moça interpretou como uma afirmativa, ele considerou:

- Nahema, Nahema! Estás enciumada?

Nahema se fez rubra. Empertigou-se toda e respondeu, altiva e segura como uma criança birrenta:

- De modo algum. É que os nossos já comentam. Esses dias, escutei a tua Letícia insinuar algo. - e fez uma cara de nojo, referindo-se à cunhada, que heroicamente sempre havia superado as infidelidades de Zoltan. - Tomes cuidado, meu irmão. Ela anda estranha ultimamente, tenho a certeza de que te deixará. Penses nisso, ou perderás teus filhos! Achas acaso que as paixões loucas a que te entregas compensam certas perdas? 

- Jamais.

Nahema silenciou, mas sem entender se essa frase dava conta de que ele concordava com o raciocínio dela, ou se era uma negação de que ele poderia ser abandonado por aquela antipática, que ele recolhera quase que da rua, uma mulher do povo, que não era artista como eles! Uma camponesa, católica, que horror! Odiava a cunhada, mas se preocupava com o irmão e com os sobrinhos. Ela continuou, vendo que ele suspirou, pensativo:

- Deverias ter te casado com Madeleine. É berrante o teu apreço por ela, e é imenso o amor dela por ti. Somente ela compreenderia e aceitaria a forma louca como vives. Todos os que os olham sabem que foram talhados um para o outro. Quando tu e ela dançam, o povo enlouquece. Se pedisses, até pagariam. Eu não gosto dela, mas sou obrigada a concordar que ela é o único par possível para ti. E agora, à revelia de tudo o que estamos acostumados a ver, tu trazes do nada um estrangeiro, e com ele vives como se fossem... irmãos!

- Tu és minha irmã. Apenas e unicamente tu, já que fomos gerados no mesmo ventre e ao mesmo tempo. Estás satisfeita?

Ela sorriu, enquanto ele lhe afagava a fronte.

- Nunca pensei que os desvarios do meu coração te preocupassem tanto, Nahema! - ele sorriu, irônico. - Mas deixemos eles para lá. Falemos agora dos teus.

A boêmia beliscou-o de leve:

- Não me provoques. O que eu queria dizer-te antes de tudo é que talvez seja perigoso esse Centauro, ou Pièrre, não sei, estar entre nós, sendo que sabemos que ele é procurado a peso de ouro.

- E queres vendê-lo? - Zoltan se ofendeu.

- Jamais faria isso. Por tua causa, e não por ele. Apenas te digo que sonhei que a caravana seria incendiada, e um homem da Igreja nos punha a ferros, depois de prender-te e ao Centauro. Sabes que tenho o dom da visão, eu nunca errei!

Zoltan estremeceu. Seu semblante se tornou grave. Era verdade: toda vez que Nahema previa algo com tanta ênfase, era fato que acabava por acontecer. E tanto assim era que o povo a temia, pois nunca se sabia se o fato desafortunado se sucedera por conta do desejo dela, ou se simplesmente era um aviso. 

- Nahema! Se o Bispo estivesse perto daqui, por certo Marie nos mandaria avisar. 

- Confias demais nessa rameira.

Um único olhar de Zoltan para Nahema, igualando-a a Marie pôs fim à conversa. Mudaram de assunto, e depois que acabaram as músicas, se recolheram às suas barracas. Mas é lógico que Zoltan, assim que amanhecesse tomaria todas as providências necessárias para evitar infortúnios. (...)

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Esse texto faz parte de uma das tramas que compõem um romance no qual estou trabalhando... CONTINUA... (risos)

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

CORAÇÃO ROUBADO

A estrela Sírius brilha forte no céu do Egito. Que ainda não se chamava "Egito"... A abençoada terra de Kemi, a terra de paisagem ardente e ventos de mistério. Esses ventos sopram, conduzindo meu sonho sem fim à uma construção antiga. Como uma sombra negra no negro da noite vou me esgueirando pelas imponentes paredes, altas e grandes como a compreensão da Deusa, fortes como as asas protetoras da Mãe dos Homens. 

Ouço uma música, que será isso? A melodia é doce. Por Daeg, é doce demais! Tão diferente das músicas selvagens e fortes que o deserto puxa e clama em minha alma insana... Sinuosa e hipnótica, bela como o ondular da naja, mas não agressiva como ela, que de tudo se defende e tudo pode destruir. Música cadenciada e encantadora, parece o vento leve do pôr-do-sol, quando ajoelhamos e com a cabeça ao solo pedimos aos Ancestrais o sucesso e a sua benção em mais uma noite escura. Meu olhar parou sobre uma doce figura que se movia delicada naquele ambiente. Notei que no que parecia um altar, uma estátua coberta por transparente véu impunha respeito. O tremular das luzes tecia movimentos, a estátua daquela deusa parecia mover-se correspondendo à benção que tantas mulheres ali presentes, pediam... Reunidas num culto. Ora, um templo! E eu estava ali, oculto na parede, como um efritt, como um gênio da noite, escondido pela sombra obscura, observando aquele estranho e singular ritual. 

A doce figura que vi era uma jovem de catorze ciclos de chuva, vestida com a simplicidade das sacerdotisas. Linda! Parecia um pedaço de sonho, os olhos grandes e expressivos fitando a estátua, a atitude reverente... Ela executava, ao som daquela música suave, estranhos passos... Dançava no compasso daquela música bonita, mas por mim desconhecida. Eu nunca tinha visto uma mulher dançar daquela forma, tão leve e tão diferente de tudo o que já havia visto nas terras ardentes. Ela era tão linda, seus olhos em comunhão com o sagrado do local e do momento. Ela parecia frágil e delicada, como uma flor do óasis, mas sua dança vaporosa tinha uma força sem igual, parecia que clamava aos ventos... Seu véu diáfano agitava-se no ar, parecia até que o vento dançava com ela...

Amei-a desde esse momento, e minha alma me disse: ela é tua! E eu me pergunto: quem sou eu, pobre pária, nômade do deserto, como posso sonhar possuir uma estrela do céu? Entrei naquela construção imponente tencionando conseguir algo, alguma riqueza que fosse, e me vi preso aos olhos daquela jovem, quase uma menina... Vi a riqueza que buscava no contorno dos seus lábios, vi o véu do mistério que me encanta ornando os cabelos longos, a alvura da veste dela contrastando com o negro de minha alma. Amei-a com todas as forças de minha essência insana e cruel, e quem me visse ali riria de mim, sempre tão feroz e tão severo, curvado ao peso do agitar de um lenço, na dança ritual de uma sacerdotisa... Se meus Ancestrais estão certos, e se vivemos inúmeras vezes e o tempo não existe, posso afirmar: já vi aqueles olhos, já senti aquele encanto, poderia viver cem anos, poderia viver cem vezes, e me lembraria! Da delicadeza de suas mãos, de seus pézinhos com asas, tão leves como eu queria que fosse a minha consciência e minhas lembranças... 

Agora, preciso ir. Ouço passos. Devem ser os guardas do Templo. Dizem que eles são implacáveis com quem não respeita a reclusão das mulheres consagradas à Deusa. E eu respeito a Deusa, mesmo que eles dêem à Ela outros nomes. Sou mau, mas acredito nos Deuses. Vim aqui para roubar, e vou voltar sem o meu coração. Ela não me viu, claro... Não sei o motivo, mas pressinto que a vida reserva algo para nós. Acabei de vê-la pela primeira vez, mas já a amo, e nem sei como isso é possível! E ela é tão diferente das mulheres do deserto! E é por isso que me encantei, ela é tão única! 

Volto silencioso e sorrateiro, como um escorpião. Em meus ouvidos, a música doce... Em minha mente a lembrança das estrelas e daquele olhar celeste. Já decidi: quero-a para mim. Não roubei nada do Templo hoje, mas essa sacerdotisa, eu levarei amanhã... E não apenas na alma, mas de verdade! A roubarei daqui, a carregarei por outras terras. Já não saberia mais enfrentar os ventos do deserto sem o olhar de tão delicada figura... Sou terrível, mas a amo... Sempre a amarei. E ela me amará, com certeza... A lua negra, mesmo que oculta no céu do deserto, é minha testemunha... 


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Esse texto foi escrito num momento muito especial da minha jornada, para uma das pessoas que mais amo, que mora no meu coração, dentro de um palácio tão suntuoso e forte como o Templo que descrevi: Sumaya, com sua graciosidade oriental sempre encantando a todos os que tem a ventura de conhecê-la! Você é muito importante na minha vida, viu, cigana?! Muito obrigado por existir e por estar sempre a meu lado, nessa vida louca, linda e dinâmica, onde a toda hora nos preocupamos com os rótulos e trocamos de papéis... E no fim das contas, percebemos que tudo isso independe quando existe a força chamada "amor", e que essa força é capaz de tudo. Que independente de rótulos e papéis na vida, temos nossas essências, e sentimentos que tem vida própria, e se adequam às nossas jornadas, e mesmo que se transformem, continuam fortes e lindos...  Que podemos ter muito, e até ser muito, mas se essa força-motriz não nos toca, nada somos... Ou como já diz uma das canções que mais amo: "A vida vale apenas quando o amor nos toca!"... Obrigado pelo muito que aprendi (e aprendo, e espero sempre aprender) com você. 

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Afrodite e a gata...

Conta-nos o célebre Esopo uma fábula mitológica maravilhosa, cuja sabedoria se encaixa e se aplica para qualquer época, pois que a psiquê humana é atemporal...

E eis que um dia, uma gata se apaixonou pelo seu dono, que era um belo rapaz, cheio de qualidades e virtudes. Ele adorava o seu animal de estimação, mas em sua mente sequer podia imaginar a paixão que a gatinha devotava a ele... Cansada e esperançosa, a felina rogou à bela Afrodite, senhora do amor, para que a ajudasse a conquistar o coração de seu amado humano.

Afrodite, que nunca fecha os ouvidos aos apelos dos apaixonados, decidiu auxiliar a gatinha, e transformou-a numa jovem muito formosa... O rapaz, numa certa noite de lua cheia, surpreeendeu aquela moça bonita perdida em seus jardins, e não entendeu nada... Quem ela seria? A troca de olhares fez com que ele se quedasse magnetizado... Os olhos dela eram lindos, brilhantes como a lua no céu. E familiares! De onde ele conhecia aquele olhar? O contato com a moça, que, parecia conhecer-lhe todos os gostos e talentos, que parecia adivinhar-lhe todas as características fez com que ele se apaixonasse loucamente por ela.

A mulher-gata exultou! Era correspondida! Sem mais poder conter a paixão, resolveram se casar. E casaram! E no alto do Olimpo, a grande Afrodite a tudo observava... "Será que a gata tinha mesmo se transformado em mulher?" - a bela deusa pensou, enquanto passava as mãos cheias de anéis pelos longos cabelos sedosos... Levantou a sobrancelha, teve uma idéia...

Na noite de núpcias, Afrodite fez surgir no quarto do casal um rato, e ficou observando sua protegida. Esquecendo completamente onde estava, a bela mulher saltou correndo da cama, perseguindo o camundongo, a fim de devorá-lo. Indignada, Afrodite a fez voltar ao que era: uma gata...

E fica a moral da história: a gente nunca foge daquilo que somos de verdade, não tem como fugir da essência real, por mais que o externo se transforme. E, apesar de ser uma fábula, ela traz em si a simbologia de uma grande verdade: quantas vezes não agimos como a gata? Pedimos aos Céus um amor que nos complete, pedimos aos Deuses e ao próprio Amor uma união perfeita, com a realização de nossos anseios mais elevados... Os Deuses concedem a dádiva. E o que fazemos? Agimos como a gata, querendo o melhor e o mais puro, querendo a nata e o mais alto, sem questionar se merecemos, e se temos mesmo estrutura para o que queremos. Não questionamos se o que queremos é adequado para o nosso momento...

E como a gata da fábula, canso de ver gente jogando fora oportunidades de felicidade duradoura, em detrimento de ratos... Jogando pela janela aquilo que pediram tão ardentemente à Deusa, concentrados em coisas pequenas que já não tem mais espaço no seu presente, coisas que pertencem a um passado. A gata virou humana, e não percebeu! Não percebeu a sorte que teve, sendo ouvida pela Deusa, sendo correspondida pelo homem que era seu sonho, e tendo a sorte maior de casar-se com ele! Quantas vezes, pessoas que se dizem evoluídas e centradas não agem assim, negando sua natureza interna, renegando sua essência em detrimento do que está fora? Não tenho dúvidas de que a gatinha amasse mesmo o seu dono. Não duvido que sua paixão por ele fosse mesmo verdadeira... Acredito que, por mais que amasse, ela não estava preparada para viver isso, para sentir isso de uma outra forma que não fosse pela sua ótica felina. E várias vezes na nossa vida isso acontece: situações que parecem perfeitas, como a moça que conhecia todos os gostos do rapaz... Podia ser um casamento grandioso, se não fosse um único detalhe: um rato! E será que Afrodite foi impiedosa e perversa, transformando de novo em gata a moça? Não! Acho que ela fez certo, pois, se em coisas pequenas, a gata se revelou, o que aconteceria nas grandes, na vida em comum com seu amado? Seria o amor dela tão grande a ponto de fazer com que ela evoluísse a tal ponto? E a Deusa sabe das coisas... Enxerga, sabe o que é melhor para todos... E quantas vezes, Afrodite nos dá, nos tira e nos revoltamos, sem ver que foi o melhor para nós?

Fica aí, para a gente observar... Uma fábula contada na Grécia Antiga, cuja riqueza simbólica é imensa, e se aplica a nós, hoje... Enquanto isso, pedimos também à bela Afrodite, a mais linda Deusa, de vivídos olhos e doce sorriso, que nos ilumine em nossa busca, que nos ajude a ser mais humanos, mais completos, mais belos, melhores...

domingo, 14 de fevereiro de 2010

MOMENTO: "O Morro dos Ventos Uivantes"


Pois é... Para não dizerem que minha alma é feita só de passado e de cultura andaluza, hoje resolvi escrever sobre uma obra da literatura inglesa que amo de paixão... Sim, pois quem vive de passado é museu. Eu odeio essas pessoas que fazem apologia diária ao passado, sempre se referindo ao próprio passado como um dogma. Como um altar no qual todos são obrigados a rezar. Tá! É importante relembrar, eu mesmo sou super saudosista e nostálgico, mas certas coisas tem limite. Eu lembro do ontem, mas vivo o hoje. E não deixo o ontem criar obstáculos intransponíveis no hoje, tento não deixar o meu passado criar muros que me limitem e principalmente, limitem as minhas relações com pessoas que gosto. Mas enfim, isso é assunto para outro post.

E lógico... Eu adoro literatura. Leio muito! Literatura inglesa: Shakespeare, Wilde, Poe... Emily Bronté, com seu morro de ventos uivantes, é uma das escritoras que mais amo, não só pelo teor do romance e dos seus poemas, mas por tudo. A história dela e seus irmãos é fascinante, intrigante mesmo. Além disso, é surpreendente que um único romance tenha imortalizado seu nome de tal forma... Fora a questão do realismo fantástico e dos conceitos de espiritualidade e moral expressos em sua obra-prima, algo à frente do seu tempo. Focaliza a vida como um todo, sendo que a morte não é o fim e nem o começo, é uma transformação, uma libertação da essência humana. Eu juro que eu só queria saber de que parte da alma ela tirou Heathcliff e Catherine. O que passou na cabeça dela no momento em que ela criou esses dois. É lógico que como romântico incurável que sou, adoro as histórias de casais famosos da literatura e da vida real também. Acredito que os casais representam viagens arquetípicas, pois ensinam a compreender e vivenciar facetas do amor. Cada um do seu jeito, cada história com seu simbolismo.

Catherine e Heathcliff são um dos casais que mais me fascinam; ele é perverso!!! E ela é extremamente geniosa, e eu digo: essa história faz a gente pensar no quanto uma frase dita faz toda uma diferença e pode alterar todo um curso de vida. Sim, eles se amavam, isso é fora de dúvida, haja visto a obsessão doentia que um nutria pelo outro. O que um desvio de caminhos é capaz de fazer, alterando tudo, menos a essência de um amor que ultrapassa todas as barreiras de bem e mal, certo e errado.

Assisti também várias versões cinematográficas desse casal demoníaco e único. A primeira que vi e que mais me marcou foi a estrelada por Ralph Fiennes e Juliètte Binoche. Quando vi o filme, ainda não tinha lido o livro. Um filme que passou, de madrugada, quando eu estava insone. A princípio, não entendi bem e achei tratar-se de um filme enfadonho. Mas assim que ouvi a palavra "cigano", quando o fazendeiro trouxe um menino sujo que recebeu o nome de Heathcliff, eu me interessei. Como assim, "cigano"??? E eu me envolvi. Me apaixonei por ambos, por aquela Catherine ousada e intempestiva, e por aquele Heathcliff forte, magnético, que depois se mostrou malvado, perverso, diabólico mesmo... Não esqueço a cena do regresso dele, todo de preto, no cavalo preto, e da cena seguinte, quando ele vai se encontrar com Catherine, casada com outro. E em como ele se empenhou para arrasar a vida do seu rival... E para se vingar de tudo o que o havia separado dela, mesmo que ele jamais admitisse... Ele é perigoso, cruel e mau, mas não tem como sentir ódio dele ou enxergá-lo como um vilão. Surpreendente... Para mim, a cena que mais me marcou foi quando, depois da morte de Catherine, Heathcliff invade a casa e aparece no velório... A expressão dele frente ao caixão foi a coisa mais dolorida que já vi. Mais ainda quando ele a retira do caixão e a abraça, com aquela dor, com aquele amor... E por conta desse amor, o cruel cigano chegou nas raias da loucura... Fez coisas que deixam a gente chocado... Chocado, mas acreditando que uma paixão dessas, que um amor insano desses é possível, sim. A não-realização do amor deles me escandalizou mais do que as maldades que ele fez para se vingar da família maldita de Cathy, que o afastou dela. E fica também a lembrança dos momentos lúdicos no começo, na charneca, sob os ventos uivantes... O que poderia ter sido, se eles tivessem podido ficar juntos?

No dia seguinte ao filme, fui na estante e peguei o livro, perdido entre tantos outros, herdado há anos, mas nunca lido. Me empolguei ainda mais, pois o livro é narrado sob várias óticas, o que nos faz ter outras opiniões sobre as personagens. Adorei! Sobretudo a parte do começo, quando o fantasma de Catherine bate nas vidraças, pedindo para entrar em casa! Meu Deus!!! Que história... Sou, decididamente, apaixonado por esse cruel Heathcliff. Tenho muito dele, acredito... (risos)

Um detalhe: hoje é dia de São Valentim, e em alguns países de cultura inglesa comemora-se o Dia dos Namorados... Nada mais justo que eu colocasse aqui um post sobre meu casal preferido... Feliz Dia de São Valentim a quem tem alguém, e que ele abençõe quem está na busca por um par. Não perfeito, pois perfeição é ilusão. Par possível. São Valentim, olhe por mim! (risos)

*******

"Minhas grandes infelicidades nesse mundo tem sido as infelicidades de Heathcliff. Aguardei-as e senti-as todas desde a sua origem. É ele a minha grande razão de viver. Se tudo perecesse, mas ele ficasse, eu continuaria a existir. E, se tudo permanecesse e ele fosse aniquilado, o mundo inteiro se tornaria para mim uma coisa totalmente estranha. Eu não seria mais parte desse mundo. (...) Nelly, eu sou Heathcliff! Ele está sempre, sempre, em meu pensamento. Não como um prazer, visto como nem sempre sou um prazer para mim mesma, mas como o meu próprio ser." Catherine, para Helena, no capítulo IX, num momento crucial da trama. Leiam!!! (risos)




quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

OJOS ASÍ...

REFLEXÕES DO DIA...

Sim! Ruano reflete!!! Ruano pensa!!! Ruano se interioriza e medita, na busca por respostas úteis e aplicáveis na vida diária... Afinal, de que adiantam conceitos bonitos e elevados se uma pessoa resolver usá-los como um black-tie, como uma roupa de festa? Usa para impressionar, e quando convém, em algumas horas propícias onde o vestuário é cabível. No cotidiano, a roupa de luxo fica lá, guardada, enfiada dentro de um armário cheirando a mofo. Muita gente usa certos conceitos maravilhosos como uma jóia: para ostentação, sem sequer imaginar o valor que a coisa tem. Resumem, limitam, mediocrizam idéias. E bancam as intocáveis, as poderosas, as iluminadas... Elas sabem, as outras não. Elas andam, os outros não podem andar. Pára!!!

Sim, eu penso!!! Eu sinto!!! Eu vejo, observo, analiso, me olho... Tento me encontrar, me entender, para não me perder dentro de mim! E uma coisa eu digo: se eu me perder dentro de mim, enlouqueço, pois é uma imensidão! (risos)... Aliás, desde o último inverno (sim, eu conto meu tempo interno pelas estações... quem me conhece sabe), o que mais faço é observar, refletir e analisar. A diferença é que, durante muito tempo, eu lutei e relutei com algumas coisas... Agora, não penso mais nisso, penso que o aprendizado maior talvez seja o de seguir o fluxo. Algo que para mim é um desafio, pois eu sempre gostei de agir e realizar, e não de esperar... Enfim! A gente pensa e tira algumas conclusões, né? A vida tem vida própria, e certas coisas estão na nossa cara o tempo todo, só a gente finge que não vê.

- as pessoas só reclamam. E nessa de reclamar, a culpa sempre é do outro. O que o outro nos fez, como eu fiquei porque o outro agiu assim-ou-assado, o outro me ofendeu. E por aí vai. E dessa mágoa, a pessoa faz um ópio, enfia num arguilé com absinto na garrafa, acende e fuma... E pira! Fuma essa loucura, e solta a fumaça nos outros que chegam perto... Não adianta chegar perto e dizer: "sai daí. Vem pra cá. Eu cuido de você. Eu curo você. Eu tenho um mundo novo e bonito para te oferecer, se você me disser que quer a lua, eu te dou". Não adianta. Em seu devaneio de ópio, a pessoa vai achar que você é um intruso, que está mentindo, e que nada do que você faça é suficiente. Eu percebi isso. Percebi que fiz um show maravilhoso, na vida, digno de premièr-danser que sou... Mas os aplausos não eram para mim. Eu podia dançar até me acabar, os aplausos sempre eram para outra direção. E eu acredito que a coisa continue nessa linha, pois eu leio e releio as coisas, e nunca sei a quê ou a quem elas se destinam. Pode ser a mim (será que sou importante?), pode ser aos amigos-que-sempre-metem-o-bedelho, pode ser ao outro valete desse baralho fuleiro. Eu já não sei e nem mais acredito... Enfim...

- é muito bacana pegar aqueles livros que a gente não leu e citar deles as frases que estão na boca de Deus-e-o-mundo, que viraram domínio público, por serem largamente utilizadas em variados locais... Para dar a impressão de que a gente leu, né? Todo mundo faz isso com a Bíblia, acho que é o maior exemplo disso que citei. Meia dúzia de frases soltas que só se aplicam quando convém. Quando imbuídas de uma ideologia, de uma motivação egoísta. Muitas dessas frases acabam recebendo dois destinos que citei: ou viram ópio ou viram jóia cara... Ou seja: só são usadas quando são agradáveis. E adianta? É muito fácil aplicar certos conceitos para julgar os outros, difícil é aplicar a mesma coisa para si e ver a parcela de culpa (ou responsabilidade, como é mais très-chic de dizer) que se tem, quando a coisa sai do controle. Ou quando se erra. É fácil pedir perdão com a boca, com palavras vazias. Difícil é expressar isso em atitudes cotidianas, não-isoladas de um contexto. Hoje me bate, amanhã assopra, e no dia seguinte, "essa lenga-lenga toda recomeça, puxa vida, ora essa, vivo na ponta dos pés!"... "E se eu cair conto até dez!"...

- eu adoro pessoas que se apaixonam por mim de verdade. Sim, sou leonino... Ego à flor da pele, doendo nos cotovelos, na raiz dos cabelos e nas unhas dos pés. Sim, eu tenho um veneno no doce da boca, eu tenho uma faca no brilho dos olhos... cuidado, eu sou perigosoooooooo... Quanta ironia... Toma leite, Ruano... Dizem que leite corta veneno. Voltando: sim, eu sou passional. Eu gosto de gente que se apaixona mesmo, e que, mesmo sabendo que não há e nem haverá correspondência, que eu não penso em ceder, nem em me entregar e menos ainda em oferecer esperanças, eu gosto de gente que tenta, que luta, que acredita. Que bate no peito e diz: "Eu amo e vou lutar por você"... E isso não é apenas para preencher meu ego, não... Nesse caso, não... Pessoas assim conquistam o que tenho de melhor: meu respeito. Meu respeito é coisa que não se compra com presentes, nem com elogios e menos ainda com patacas. E me ajudam a ter certeza de que não sou louco, de que sim, sou ardente, sou passional, acredito na força dos sentimentos, que brotam da terra como lava de vulcão, ou que brotam da terra como flores, dependendo do contexto. E gosto disso: de gente que tenta. Que luta para me conquistar, como eu mesmo já lutei para conquistar quem quis... Malandramente ou afetivamente, sinceramente para uma eterna noite ou falsamente para uma vida inteira... Mas eu fiz! Eu vibrava quando conquistava o mais difícil, a vitória tinha um sabor ainda melhor! Os beijos eram mais quentes, a pele ficava até com mais viço, até a virilidade do meu corpo correspondia de forma mais eloquente, parecia que quanto mais difícil era o caminho, melhor era o prazer! Só que o Ruano é louco-de-pedra. As pessoas não são assim. Elas querem tudo fácil. Facinho, facinho, só faltando a gente voltar aos antigamentes, e deixar papai-e-mamãe escolher para nós o par ideal. E rezar para Santo Antoninho fazer a gente se apaixonar e ser feliz num nicho de amor já prontinho! E se você fala para alguém: me conquiste! A pessoa se ofende, pois em seu ego, jamais admite a possibilidade de "se rebaixar" lutando para conquistar quem supostamente ama... Eu estou aqui, você que venha! Lógico!!! Afinal, tem rei e tem vassalo, não é verdade?! Para que alguém vai lutar, sabendo que vai perder? Melhor entregar os pontos de uma vez... E jogar a culpa no outro: "eu fiz o que eu pude, você é quem não quis!"... Lógico, a pimenta sempre é doce-de-leite (doce deleite) nos outros. Em nós, arde e até inflama. Como Helena de Troia deve ter pensando, em sua cabeça louca: "Foda-se se uma guerra acontece por minha causa! Eu quero é ser rainha, seja aqui ou lá"... E parece que o raciocínio de muita gente segue a mesma linha: destróem e querem receber tudo de volta de mão-beijada, com direito à festa até com go-go boy saindo de dentro do bolo. Para quê lutar? Para quê refletir onde errou, se continua errando todos os dias? Se nem sequer percebe onde está o erro? Eu tenho que parar para esperar uma esmola, e se assim não faço sou apenas egocêntrico? Onde é que está o limite? E o sentimento, cadê? Por essas e outras, eu concluo e afirmo: gosto de gente que insiste, que bate o pé, que tenta... Respeito quem é forte como eu, não quem foge e se esconde debaixo da saia da mãe-macumbeira, ou quem se comporta como o poodle-da-madame-de-sangue-latino-metida-a-ser-da-corte-inglesa. Sim, como o poodle. "Eu tiro daqui e boto ali. É meu, tem pedigree e eu faço o que quiser. Sempre que eu quiser, ele vai latir para mim". Não! Eu gosto de gente forte, que dá a cara à tapa e briga pelo que quer, mesmo no berro. Gosto dos meus iguais. E o tempo passa e a gente nem sabe a quantas anda, pois até perguntas indecorosas a gente ouve, estabelecendo comparações que envolvem até amigos-de-amigos... Quando eu amo, eu não sinto vergonha da pessoa. Aliás, se me conhecesse bem, saberia que eu só amo quem admiro. Acabei de citar isso acima: admiro gente forte. Só que o problema é: qual é o ponto de referência? O valete-latino-do-baralho onde sempre fui carta-fora, onde sempre fui persona-non-grata. É muito doloroso amar uma pessoa que não te enxerga, que só vê na frente um passado, e que sempre te compara com outra, nas menores coisas... Sou um homem lindo e exótico, preciso mesmo disso?!

- Mais fácil ainda depois de sujar-e-não-limpar, é receber a revelação celeste da divina auto-aceitação. Essa é a melhor forma de continuar pisando nos outros, porém de forma clean. Afinal, isso é ser chique. E chique é ser inteligente.

No mais, cansei. Quero e vou ser feliz. Tem muita, mas muita gente nesse mundo. Quero ao meu lado pessoas fortes e que me respeitem, que olhem para mim e me vejam, e não fiquem me usando como escudo onde só se refletem outras caras canalhas. E isso vale para tudo! (risos)

E no final, eu me pergunto: escrevi isso tudo para quê? Essas frases ininteligíveis? Esses devaneios loucos vindos de uma alma regada a Domecq e cigarros finos? Quem vai ler e entender? Não me interessa... A resposta está numa canção que adoro, que diz: "ninguém sabe que isso acontece por que vou passar minha vida esquecendo você..."

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terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Pátios andaluzes...



Citei Lorca, e não podia deixar de colocar também duas fotos de pátios andaluzes, que ganhei da super querida Adriana Val... No arquivo pps tinham várias fotos, com um texto maravilhoso e o som de "Aranjuez"... Esse concerto é a coisa mais linda... Eu resolvi colocar aqui os dois que mais gostei, sobretudo o primeiro, com a fonte mourisca.

Meu sonho é uma casinha dessas, com um pátio desses... Para reunir as pessoas que amo, para a gente poder rir, bailar, tocar, cantar... (risos)... Brincadeira ou não, é um dos sonhos que tenho, e vamos combinar? É um pequeno paraíso, não é verdade?! Com certeza, já plasmei no Astral o meu "pequeno paraíso", com essas imagens, e espero ir para lá sempre que eu sentir necessidade, através dos meus sonhos... Afinal, uma das melhores coisas que o ser humano tem é isso: a capacidade de sonhar e de criar vida com os sonhos!

Nos últimos tempos, o que eu mais preciso mesmo é de sossego, para me recuperar de umas situações que me enlouqueceram durante muito tempo... Como disse uma amiga minha esses dias, existe a necessidade de se retirar os espinhos que ficam na carne, mesmo sabendo que vai doer, que vai rasgar e que vai sangrar. Mas pelo menos, fica a certeza de que, depois da dor, vai sarar, vai cicatrizar e tudo vai voltar ao normal, mesmo que fiquem marcas. Acredito que o erro das pessoas está em, estando feridas, não se importarem em ferir os outros, por vezes negando-se mesmo a ver quão graves estão com os seus próprios espinhos... Não quero repetir erros que me fizeram mal, e nem quero copiar maus exemplos. Quero apenas ver a dimensão de algumas coisas e sobreviver, me dando um tempo para eu me curar e me restabelecer antes de entrar nos barcos da vida, de novo... Enfim! Ter um lugarzinho como esses pátios, na Terra dos Sonhos, faz um bem... Relaxa, enquanto a gente tenta sobreviver aqui e seguir em frente! (risos)

MOMENTO: GARCÍA LORCA


Os encontros de um caracol aventureiro
(dezembro de 1918, Granada)

Há doçura infantil
na manhã quieta.
As árvores estendem
seus braços à terra.
Um bafo tremente
cobre as sementeiras,
e as aranhas estendem
seus caminhos de seda
-raias no cristal limpo
do ar.

Na alameda
um manancial recita
seu canto entre as ervas.
E o caracol, pacífico
burguês da vereda,
ignorado e humilde,
a paisagem contempla.
A divina quietude
da Natureza
deu-lhe valor e fé,
e esquecendo-se das penas
de seu lar, desejou
ver o fim da senda.

Pôs-se a andar e internou-se
em um bosque de heras
e de urtigas. No meio
havia duas rãs velhas
que tomavam sol,
entediadas e enfermas.

'Esses cantos modernos'
-murmurava uma delas-
'são inúteis.' 'Todos,
amiga' -lhe responde
a outra rã, que estava
ferida e quase cega. -
'Quando jovem acreditava
que se finalmente Deus ouvisse
o nosso canto, teria
compaixão. E minha ciência,
pois já vivi muito,
faz com que não o creia.
Eu já não canto mais...'

As duas rãs se queixam,
pedindo uma esmola
a uma rãzinha nova
que passa presumida
apartando as ervas.

Ante o bosque sombrio
o caracol se aterra.
Quer gritar. Não pode.
As rãs aproximam-se dele.

'É uma mariposa?'
-diz a quase cega.
'Tem dois cornichos'
- a outra rã responde.
'É o caracol. Vens,
caracol, de outras terras?'

'Venho da minha casa e quero
bem depressa voltar para ela.'
'É um bicho mui covarde'
- exclama a rã cega.
'Não cantas nunca?' 'Não canto',
diz o caracol. 'Nem rezas?'
'Tampouco - nunca aprendi.'
'Nem crês na vida eterna?'
'O que é isso?'

'É viver sempre
dentro da água mais serena,
perto de uma terra florida
que rico manjar sustenta.'

'Quando menino me disse
um dia minha pobre avó
que, ao morrer, eu iria
para junto das folhas mais tenras
das árvores mais altas.'

'Uma herege era tua avó.
A verdade te dizemos,
nós. Acreditarás nela' -
dizem as rãs furiosas.

'Por que quis ver a senda?'
-geme o caracol. 'Sim, creio
para sempre na vida eterna
que [me] predicais...'

As rãs,
muito pensativas, afastam-se,
e o caracol, assustado,
vai-se perdendo na mata.

As duas rãs mendigas
como esfinges ficam.
Uma delas pergunta:
'Crês tu na vida eterna?'
'Eu não' - diz mui triste
a rã ferida e cega.
'Por que dissemos, então,
ao caracol que cresse?'
'Porque... Não sei por quê'
- diz a rã cega.
'Encho-me de emoção
ao sentir a firmeza
com que chamam meus filhos
a Deus lá da acéquia...'

O pobre caracol
volta atrás. Na senda
um silêncio ondulado
emana* da alameda.
Com um grupo de formigas
encarnadas se encontra.
Vão muito alvoroçadas,
arrastando atrás de si
outra formiga que tem
truncadas as antenas.
O caracol exclama:
'Formiguinhas, paciência.
Por que assim tratais
vossa companheira?
Contai-me o que fez.
Eu julgarei com consciência.
Conta-o tu, formiguinha'.

A formiga, meio morta,
diz muito tristemente:
'Eu vi as estrelas'.
'Que são as estrelas', dizem
as formiguinhas inquietas.

E o caracol pergunta,
pensativo: 'Estrelas?'
'Sim' - repete a formiga-,
'vi as estrelas,
subi na árvore mais alta
que existe na alameda
e vi milhares de olhos
dentro de minhas trevas.'
E o caracol pergunta:
'Mas o que são as estrelas?'
'São luzes que levamos
sobre nossa cabeça'.
'Nós não as vemos',
as formigas comentam.
E o caracol: 'Minha vista
só alcança as ervas'.

E as formigas exclamam,
movendo as suas antenas:
'Matar-te-emos, és
perguiçosa e perversa.
O trabalho é a tua lei'.

'Eu vi as estrelas',
diz a formiga ferida.
E o caracol sentencia:
'Deixai-a ir,
continuai as vossas tarefas.
É possível que, muito em breve,
já rendida, morra'.

Pelo ar dulcífico,
cruzou uma abelha.
A formiga, agonizando,
cheira a tarde imensa,
e diz: 'É a que vem
levar-me a uma estrela'.

As demais formiguinhas
fogem ao vê-la morta.

O caracol suspira
e aturdido se afasta
cheio de confusão
por causa do eterno. 'A senda
não tem fim' - exclama.
'Talvez às estrelas
se chegue por aqui.
Mas minha grande fraqueza
me impedirá de chegar.
Não pensemos mais nelas.'

Tudo estava brumoso
de sol débil e névoa.
Campanários longínquos
chamam gente à igreja,
e o caracol, pacífico
burguês da vereda,
aturdido e inquieto,
a paisagem contempla.

POEMA DA SEGUIRIYA GITANA - LA GUITARRA

Empieza el llanto
de la guitarra.
Se rompen las copas
de la madrugada.
Empieza el llanto
de la guitarra.
Es inútil callarla.
Es imposible
callarla.
Llora monótona
como llora el agua,
como llora el viento
sobre la nevada
Es imposible
callarla,
Llora por cosas
lejanas.
Arena del Sur caliente
que pide camelias blancas.
Llora flecha sin blanco,
la tarde sin mañana,
y el primer pájaro muerto
sobre la rama
¡Oh guitarra!
Corazón malherido
por cinco espadas


O AMOR DORME NO PEITO DO POETA

Nunca entenderás o quanto te quero
porque dormes em mim e estás adormecido.
Eu te oculto chorando, perseguido
por uma voz de penetrante aço.

Norma que agita igual carne e luzeiro
atravessa meu peito já dolorido
e as turvas palavras morderam
as asas de teu espírito severo.

Grupo de gente salta nos jardins
esperando teu corpo e minha agonia
em cavalos de luz e verdes crinas.

Porém segue dormindo, vida minha,
ouve meu sangue roto nos violinos!
Olha que nos espreitam ainda!

*******

De vez em quando, eu tenho meus momentos "Lorca"... Coloquei hoje três poemas dele que amo, e que falam demais de mim. A crítica social e religiosa na fábula do caracol... O trecho da Seguiriya Gitana, lógico, pois a seguiriya é o ritmo-mãe do flamenco, é onde a alma do cante jondo se derrama inteira; a seguiriya fala exatamente da dor, da perseguição, das dificuldades da vida gitana... E o terceiro... Lorca teve uma história muito interessante, era um gênio... Com uma alma sensível e adiante do seu tempo, numa época difícil, soube expressar de forma lúdica os sentimentos que eram (e ainda são) tão incompreendidos... Tem coisas que não se compreende, apenas se sente!

Com certeza, Lorca traduz muito da alma popular andaluza. É lógico que não quero que esse meu espaço fale apenas de cultura cigana/espanhola, mas aqui eu pretendo colocar as coisas que gosto, à medida que elas me vêm à mente... Sou um mosaico, mistura de ontem, hoje e sempre! (risos)... Que culpa eu tenho se minha herança cultural é tão abençoada?! (risos)

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

COMO EL AGUA

Numa noite muto especial da minha vida, eu ouvi:

- Você podia dançar para nós, né?!

Eu relutei. Fiz que não entendi, que era chiste. Meu coração acelerou, isso era coisa que se pedisse? Houve uma insistência, seguida de um olhar pra lá de sedutor:

- Dança? Dança pra mim?

Coloquei meu figurino: camisa vermelha com lunares negros, filetes dourados... calça preta, botas... Gitano... Não sabia o que dançar, tamanho era meu nervoso, minha tensão... Até parecia que era a primeira vez, nem parecia que dançar fosse parte da minha rotina, parte do meu trabalho que colocava comida boa na mesa... Liguei o som sem nem sequer me lembrar qual disco estava lá dentro. Apertei um "play" com os dedos tremendo. E a música começou.

Era "Como el Agua"... E eu comecei meu baile... Dancei, olhando de soslaio para aqueles olhos que me miravam com tanto encanto. Eu tremia, e dentro de mim uma sensação estranha... Duas sensações se misturavam. Parecia que eu SEMPRE tinha feito aquilo, para aquela pessoa. Um dèja-vu total. E parecia que eu NUNCA tinha feito aquilo, na vida! Tal era meu nervoso! (risos)

Me entreguei para a música... Quando ela se findou, ouvi uma das frases mais bonitas que já me falaram, na vida:
"É A COISA MAIS LINDA QUE JÁ VI. PARECIA UM PEDAÇO DE FOGO BROTANDO DO CHÃO..."

O que se sucedeu depois, eu prefiro não comentar, mas afirmo que as 24 horas seguintes foram muito, mas muito boas... (risos)


Sevilla...

Sevilha se veste de gala! Naquela tarde, passava das seis horas e o sol ainda brilhava... O coração de Andaluzia comemorava a Assunção da Virgem. Era lá pelos idos de 1830, talvez... De que servem os calendários, se o espírito guarda as emoções e as marcas, mas se esquece quais são os tempos?! Tempo é convenção humana, inventada para ajudar os mortais a seguirem seus rumos sem enlouquecerem.

Pelas ruelas estreitas, a procissão passava. A imagem da Virgem ia à frente, em seu andor. Enfeitada com ouros, brocados e sedas caras; suas lágrimas eram de diamantes. Era isso que os endinheirados faziam: vestiam a estátua da Virgem, mas jamais lhe copiavam o exemplo; cobriam de ouro aquelas imagens, fazendo delas ídolos de sua ostentação. Na tola esperança de com isso, comprar no céu uma herdade cheia de vassalos... Lógico, onde já se viu? Deus criou os ricos para serem ricos, e os pobres para dependerem de quem tem! Como poderia haver um céu sem classes sociais? Era isso que os nossos ouviam deles, quando íamos ler a sina nas cozinhas dos castelos, ou nas tavernas, e ríamos. Ríamos a valer dessa imbecilidade. E eles nos temiam. Diziam que tínhamos parte com o demônio... Eles achavam que tudo que vinha do Oriente era pecaminoso. Afinal, o Oriente era o berço de práticas diferentes, e essas pessoas de lá eram pagãs! Não eram cristãs, não seguiam a única verdade: a Santa Madre Igreja instituída pelo próprio Jesus e confiada ao apóstolo Pedro, mesmo ele sendo um pusilânime que negou seu Mestre por três vezes seguidas! Se os nossos vinham do Oriente, vinham da Pérsia e da Babilônia, éramos também pecaminosos, já que em nosso coração não adentrara ainda a presença da Igreja, com suas garantias de um céu cheio de anjos após a morte.

E mesmo eles achando que tínhamos parte com o diabo, estávamos lá, naquela procissão. Cada um com seu coração ligado na figura dos ícones que seguiam à frente das pessoas: a virgem em lágrimas, atrás de seu filho, o Cristo dos Ciganos, vestido de púrpura, carregando sua cruz, as faces marcadas pela dor e pelo sangue que derramou. Como um ídolo... Os mais simples diziam: “como o Cristo sofreu! Por nós!”. Os ricos olhavam para baixo... afinal, estavam cumprindo com seus deveres todos os meses; se confessavam e pagavam regiamente a quantia mensal que servia para o mantenimento da catedral. De outro lado, nós, que sentíamos uma espécie de nostalgia, de saudade... Que víamos a história daquele Mestre como uma das coisas mais lindas que já ouvimos... E assim, seguíamos na procissão... Muitos se afastavam de nós, com medo ou com ódio, esquecendo por um momento onde estavam, e esquecendo que, na frente daquele andor estava a imagem que representava um homem sábio e puro, no momento mais difícil de sua vida. Muitos apenas reparavam nas vestes dos ricos, comentavam sobre o luxo das imagens e sobre o espalhafato com que nós, os errantes, nos ornávamos. Esqueciam o fundamental: que na frente daquele andor, estava a representação de um homem que se atreveu a dizer que somos todos livres, iguais e que devemos amar! Esquecendo-se do exemplo da mãe desse homem, que o educou e que, mesmo em seu desespero, ergueu os olhos aos Céus e pediu a Deus a piedade por todos que praticavam suas injustiças... O tempo havia passado e as injustiças se mantinham, e ainda mais ferozes... Que ironia!

A procissão seguia, engalanada, e o povo achando que o Oriente era satânico, se esquecendo que o Oriente havia feito de Andaluzia um pólo cultural e comercial. Que as construções andaluzas e mesmo muito da identidade do povo se devia à orientalização de sua história, quando “os orientais”, com pouquíssimos homens, atravessaram a nado e tomaram aquelas terras, fazendo delas um riquíssimo país. Esqueciam disso, os parvos... Os lerdos... Esqueciam que os nossos sabiam disso, pois que as histórias eram contadas de boca-em-boca, de geração para geração, em volta das fogueiras, entre as danças e os vinhos, quando os nossos se enfiavam nas cavernas para não serem mortos... E o povo, mesmo ali, rezando ou fingindo que rezando, esquecia-se que aquele homem com a cruz, e sua belíssima mãe também eram do Oriente...

Gargalhei enquanto pensava nisso tudo. Decididamente, eu amava aquele ato de fé. Amava a Virgem e seu Filho, devia a eles a gratidão pelas tantas vezes em que lhes roguei força para suportar as dificuldades de viver de terra em terra, para suportar os maus-tratos dos outros e as desconfianças... Para suportar as calúnias e difamações que os meus enfrentavam, já que nem da catedral podíamos entrar. Se quiséssemos rezar, que fosse na procissão, junto com os outros, os que nos espezinhavam todos os dias, e os que faziam isso ali, debaixo do nariz da Virgem. Eu tinha gratidão e respeito ao Cristo dos Ciganos... Mas não pude deixar de rir ao concluir isso tudo. Eu amava o ato de fé, mas odiava a estrutura que o mantinha. Odiava aquela igreja porca que incentivava o povo a nos fechar as portas. Odiava-a!

Minha avó, quase centenária, ao meu lado, me censurou:

- Hombre! Não rias! Ou os payllos pensarão que estamos rindo deles! – e, numa risada, continuou: - Se não rezas com fé, a Virgem não atende teu pedido...

Não entendi o acento que ela usou, não entendi a inflexão de sua voz... Doña Zoraya, sempre com suas frases dúbias... Acredito que ela estivesse pensando nas mesmas coisas que eu, talvez. Eu segurava o braço dela. Na outra mão, ela segurava o terço de moedas, e a mãozinha de minha filha, que, olhinhos brilhantes, acompanhava a tudo com seu ar infantil e feliz.

- Pai! Eu quero ver a Santa! – ela falou, me encarando com seus olhos inocentes. Como eu amava aquela criaturinha, era a coisa mais importante da minha vida!

Foi Doña Zoraya quem lhe respondeu:

- Acalma-te, Nena! Não se pode ver a Santa, ainda... ela está à frente, escoltada pelos toureiros!

- Pelos toureiros?

- Sim, niña... A Virgem de Sevilla também é protetora dos toureiros. Eles rezam à ela antes de entrar na arena, para que ela os proteja e os conserve vivos depois do combate com o touro, na Plaza.

A criança abaixou a cabeça, e pensou. Levantou e me olhou, fez menção de falar, olhando para mim e para a velha, mas calou-se, ensimesmada.

- Que passa, minha jóia? Em quê pensas? – eu disse. Essa niña era terrível. Quando se punha a cismar, todos na tribo sabíamos que ela falaria algo que estava anos-luz de distância de nossa compreensão. Apesar do bulício da multidão, quis ouvi-la. Peguei-a no meu colo, e ela começou:

- Eles rezam para ficar vivos, mas tiram a vida dos touros! Isso é errado!

Olhei para minha avó e levantei a sobrancelha. Era a mais pura verdade, como sempre. Essa menina parecia adulta! Por vezes, sua sabedoria inata me assustava... ela era apenas uma criança!

- Quando cresceres, queres bailar na Plaza de Toros? É bonito, é grande... – perguntei, para testar onde essa meninota de seis luas-grandes queria chegar.

- De jeito nenhum! Não gosto de ver animais morrendo. E também não quero ver homens morrendo! Se um touro espeta o toureiro com os chifres, ele morre! Porque os payllos gostam tanto de ver morte?!

Calei-me; que argumentos eu e a velha Zoraya teríamos para isso? Nenhum. Mudei de assunto:

- Estamos quase chegando perto do andor da Virgem.

Ela pareceu animar-se mais, e sorriu para mim, com seus olhos aveludados e sonhadores... Por fim, chegamos perto do andor da Virgem. Vimos de longe a estátua balouçando entre a multidão de fiéis, que tocavam o andor na tentativa de se curar de suas dores físicas e morais. Atrás do andor, vários jovens toureiros, que com suas capas rubras em torno dos ombros e chapéus no peito, velavam, compenetrados.

Andávamos atrás deles... Minha filha olhava para as roupas deles maravilhada. Como eram brilhantes e bonitas! Doña Zoraya sorria, caminhando devagar e rezando baixinho, com certeza por nós todos, como era seu costume...

- É uma pena eles usarem uma roupa tão bonita para fazerem uma coisa tão feia.

Minha filha falou isso alto, um dos toureiros ouviu. E olhou para trás, nos censurando. Decididamente, ela odiava touradas, mesmo eu nunca a tendo levado em nenhuma. Eu e "el cuadro de flamenco" já havíamos dançado em algumas Plazas, mas eu nunca a levava... Ela era muito pequena, e tudo estava sempre muito cheio... Eu sempre temi que algo acontecesse com ela. No acampamento e nas cuevas, ela estaria mais segura, entre os nossos.

- Niña... aquieta-te! As pessoas querem rezar! – eu falei.

Ela, obediente como sempre, calou-se, e olhava tudo a seu redor, com sua curiosidade infantil. Sem querer, ela pisou na capa de um toureiro de azul, que estava imediatamente à nossa frente. Mesmo leve, ele sentiu, e olhou para trás. Olhou para a pequena, e deu sorriso, enquanto ela se desculpava. Olhou para Doña Zoraya, e por fim, olhou para mim.

- Abuela... me esperes na entrada da igreja, no fim da procissão. Venho buscá-las... Depois que isso tudo acabar; tenho negócios a tratar... Plata... Plata...

Minha avó me olhou com aqueles olhos indecifráveis, e nada disse. Apenas acenou afirmativamente com a cabeça, e segurou com mais força a mãozinha da bisneta. Elas sabiam se cuidar muito bem, eram fortes... E eu tinha que sair dali. Tinha que sair dali!

Agora estou aqui, numa das ruelas estreitas... entre os vãos das paredes e os becos. A noite está quase caindo... E eu aqui estou, à espera... Será que estou certo no que vi? Ou será que me enganei?

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Para ilustrar meu conto, estão dois vídeos que amo... Esse tangos que é lindíssimo, com cenas de Sevilla antiga, e falando das praças de touros... Eu, sinceramente, sou radicalmente CONTRA as carnificinas das touradas... Acredito que esse "espetáculo" deveria ser realmente transformado e re-adaptado, de modo a virar mesmo um espetáculo, que mantivesse a simbologia original: o pensamento contra o instinto... Sabendo que ambos são fortes e sempre estarão presentes na psiquê humana... Eu me pergunto: para quê assassinar e despedaçar um touro? Isso tem que acabar... Coloquei também um vídeo da Saeta do Cristo dos Gitanos, cantada pelo meu ídolo Camarón de La Isla... Eu não sou cristão, mas isso mexe comigo... traz uma lembrança, uma saudade... Enfim! Diz a explicação oficial:

"La saeta é um tipo de composição de quatro a cinco versos octassílabos e de conteúdo religioso dedicado à Virgem e a Jesus. Sua origem está em cântigos que algumas ordens religiosas entoavam nos séculos XVI e XVII. Nas procissões da Semana Santa na região da Andaluzia, na Espanha, especialmente na cidade de Sevilha, são os ciganos que cantam la saeta a cada estação da Via Sacra. A mais famosa saeta tem letra do poeta Antônio Machado e música de Juan Manoel Serrat."

LA SAETA

Dijo una voz popular:
¿Quién me presta una escalera
para subir al madero
para quitarle los clavos
a Jesús el Nazareno?

Oh, la saeta, el cantar
al Cristo de los gitanos
siempre con sangre en las manos,
siempre por desenclavar.

Cantar del pueblo andaluz
que todas las primaveras
anda pidiendo escaleras
para subir a la cruz.

Cantar de la tierra mía
que echa flores
al Jesús de la agonía
y es la fe de mis mayores.

¡Oh, no eres tú mi cantar
no puedo cantar, ni quiero
a este Jesús del madero
sino al que anduvo en la mar!