quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
ZOLTAN E NAHEMA... parte III
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
MOMENTO: NOSTALGIA NOTURNA...
domingo, 21 de fevereiro de 2010
ZOLTAN E NAHEMA... parte II
sábado, 20 de fevereiro de 2010
Oração à Deusa LAKSHMI
"Om Shrim Maha Lakshimiai Namah"
"Eu Saúdo a Deusa da Beleza, do Amor, e da Prosperidade"
FUERZA GITANA
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
ZOLTAN E NAHEMA... parte I
terça-feira, 16 de fevereiro de 2010
CORAÇÃO ROUBADO
Ouço uma música, que será isso? A melodia é doce. Por Daeg, é doce demais! Tão diferente das músicas selvagens e fortes que o deserto puxa e clama em minha alma insana... Sinuosa e hipnótica, bela como o ondular da naja, mas não agressiva como ela, que de tudo se defende e tudo pode destruir. Música cadenciada e encantadora, parece o vento leve do pôr-do-sol, quando ajoelhamos e com a cabeça ao solo pedimos aos Ancestrais o sucesso e a sua benção em mais uma noite escura. Meu olhar parou sobre uma doce figura que se movia delicada naquele ambiente. Notei que no que parecia um altar, uma estátua coberta por transparente véu impunha respeito. O tremular das luzes tecia movimentos, a estátua daquela deusa parecia mover-se correspondendo à benção que tantas mulheres ali presentes, pediam... Reunidas num culto. Ora, um templo! E eu estava ali, oculto na parede, como um efritt, como um gênio da noite, escondido pela sombra obscura, observando aquele estranho e singular ritual.
Agora, preciso ir. Ouço passos. Devem ser os guardas do Templo. Dizem que eles são implacáveis com quem não respeita a reclusão das mulheres consagradas à Deusa. E eu respeito a Deusa, mesmo que eles dêem à Ela outros nomes. Sou mau, mas acredito nos Deuses. Vim aqui para roubar, e vou voltar sem o meu coração. Ela não me viu, claro... Não sei o motivo, mas pressinto que a vida reserva algo para nós. Acabei de vê-la pela primeira vez, mas já a amo, e nem sei como isso é possível! E ela é tão diferente das mulheres do deserto! E é por isso que me encantei, ela é tão única! *******
Esse texto foi escrito num momento muito especial da minha jornada, para uma das pessoas que mais amo, que mora no meu coração, dentro de um palácio tão suntuoso e forte como o Templo que descrevi: Sumaya, com sua graciosidade oriental sempre encantando a todos os que tem a ventura de conhecê-la! Você é muito importante na minha vida, viu, cigana?! Muito obrigado por existir e por estar sempre a meu lado, nessa vida louca, linda e dinâmica, onde a toda hora nos preocupamos com os rótulos e trocamos de papéis... E no fim das contas, percebemos que tudo isso independe quando existe a força chamada "amor", e que essa força é capaz de tudo. Que independente de rótulos e papéis na vida, temos nossas essências, e sentimentos que tem vida própria, e se adequam às nossas jornadas, e mesmo que se transformem, continuam fortes e lindos... Que podemos ter muito, e até ser muito, mas se essa força-motriz não nos toca, nada somos... Ou como já diz uma das canções que mais amo: "A vida vale apenas quando o amor nos toca!"... Obrigado pelo muito que aprendi (e aprendo, e espero sempre aprender) com você.
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010
Afrodite e a gata...
domingo, 14 de fevereiro de 2010
MOMENTO: "O Morro dos Ventos Uivantes"

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
REFLEXÕES DO DIA...
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
Pátios andaluzes...
MOMENTO: GARCÍA LORCA

na manhã quieta.
As árvores estendem
seus braços à terra.
Um bafo tremente
cobre as sementeiras,
e as aranhas estendem
seus caminhos de seda
-raias no cristal limpo
do ar.
Na alameda
um manancial recita
seu canto entre as ervas.
E o caracol, pacífico
burguês da vereda,
ignorado e humilde,
a paisagem contempla.
A divina quietude
da Natureza
deu-lhe valor e fé,
e esquecendo-se das penas
de seu lar, desejou
ver o fim da senda.
Pôs-se a andar e internou-se
em um bosque de heras
e de urtigas. No meio
havia duas rãs velhas
que tomavam sol,
entediadas e enfermas.
'Esses cantos modernos'
-murmurava uma delas-
'são inúteis.' 'Todos,
ferida e quase cega. -
'Quando jovem acreditava
que se finalmente Deus ouvisse
o nosso canto, teria
compaixão. E minha ciência,
pois já vivi muito,
faz com que não o creia.
Eu já não canto mais...'
As duas rãs se queixam,
pedindo uma esmola
a uma rãzinha nova
que passa presumida
apartando as ervas.
Ante o bosque sombrio
o caracol se aterra.
Quer gritar. Não pode.
As rãs aproximam-se dele.
'É uma mariposa?'
-diz a quase cega.
'Tem dois cornichos'
- a outra rã responde.
'É o caracol. Vens,
caracol, de outras terras?'
'Venho da minha casa e quero
bem depressa voltar para ela.'
'É um bicho mui covarde'
- exclama a rã cega.
'Não cantas nunca?' 'Não canto',
diz o caracol. 'Nem rezas?'
'Tampouco - nunca aprendi.'
'Nem crês na vida eterna?'
'O que é isso?'
'É viver sempre
dentro da água mais serena,
perto de uma terra florida
que rico manjar sustenta.'
'Quando menino me disse
um dia minha pobre avó
que, ao morrer, eu iria
para junto das folhas mais tenras
das árvores mais altas.'
'Uma herege era tua avó.
A verdade te dizemos,
nós. Acreditarás nela' -
dizem as rãs furiosas.
'Por que quis ver a senda?'
-geme o caracol. 'Sim, creio
para sempre na vida eterna
que [me] predicais...'
As rãs,
muito pensativas, afastam-se,
e o caracol, assustado,
vai-se perdendo na mata.
As duas rãs mendigas
como esfinges ficam.
Uma delas pergunta:
'Crês tu na vida eterna?'
'Eu não' - diz mui triste
a rã ferida e cega.
'Por que dissemos, então,
ao caracol que cresse?'
'Porque... Não sei por quê'
- diz a rã cega.
'Encho-me de emoção
ao sentir a firmeza
com que chamam meus filhos
a Deus lá da acéquia...'
O pobre caracol
volta atrás. Na senda
um silêncio ondulado
emana* da alameda.
Com um grupo de formigas
encarnadas se encontra.
Vão muito alvoroçadas,
arrastando atrás de si
outra formiga que tem
truncadas as antenas.
O caracol exclama:
'Formiguinhas, paciência.
Por que assim tratais
vossa companheira?
Contai-me o que fez.
Eu julgarei com consciência.
Conta-o tu, formiguinha'.
A formiga, meio morta,
diz muito tristemente:
'Eu vi as estrelas'.
'Que são as estrelas', dizem
as formiguinhas inquietas.
E o caracol pergunta,
pensativo: 'Estrelas?'
'Sim' - repete a formiga-,
'vi as estrelas,
subi na árvore mais alta
que existe na alameda
e vi milhares de olhos
dentro de minhas trevas.'
E o caracol pergunta:
'Mas o que são as estrelas?'
'São luzes que levamos
sobre nossa cabeça'.
'Nós não as vemos',
as formigas comentam.
E o caracol: 'Minha vista
só alcança as ervas'.
E as formigas exclamam,
movendo as suas antenas:
'Matar-te-emos, és
perguiçosa e perversa.
O trabalho é a tua lei'.
'Eu vi as estrelas',
diz a formiga ferida.
E o caracol sentencia:
'Deixai-a ir,
continuai as vossas tarefas.
É possível que, muito em breve,
já rendida, morra'.
Pelo ar dulcífico,
cruzou uma abelha.
A formiga, agonizando,
cheira a tarde imensa,
e diz: 'É a que vem
levar-me a uma estrela'.
As demais formiguinhas
fogem ao vê-la morta.
O caracol suspira
e aturdido se afasta
cheio de confusão
por causa do eterno. 'A senda
não tem fim' - exclama.
'Talvez às estrelas
se chegue por aqui.
Mas minha grande fraqueza
me impedirá de chegar.
Não pensemos mais nelas.'
Tudo estava brumoso
de sol débil e névoa.
Campanários longínquos
chamam gente à igreja,
e o caracol, pacífico
burguês da vereda,
aturdido e inquieto,
a paisagem contempla.
Empieza el llanto
de la guitarra.
Se rompen las copas
de la madrugada.
Empieza el llanto
de la guitarra.
Es inútil callarla.
Es imposible
callarla.
Llora monótona
como llora el agua,
como llora el viento
sobre la nevada
Es imposible
callarla,
Llora por cosas
lejanas.
Arena del Sur caliente
que pide camelias blancas.
Llora flecha sin blanco,
la tarde sin mañana,
y el primer pájaro muerto
sobre la rama
¡Oh guitarra!
Corazón malherido
por cinco espadas
porque dormes em mim e estás adormecido.
Eu te oculto chorando, perseguido
por uma voz de penetrante aço.
Norma que agita igual carne e luzeiro
atravessa meu peito já dolorido
e as turvas palavras morderam
as asas de teu espírito severo.
Grupo de gente salta nos jardins
esperando teu corpo e minha agonia
em cavalos de luz e verdes crinas.
Porém segue dormindo, vida minha,
ouve meu sangue roto nos violinos!
Olha que nos espreitam ainda!
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
COMO EL AGUA
Sevilla...
Sevilha se veste de gala! Naquela tarde, passava das seis horas e o sol ainda brilhava... O coração de Andaluzia comemorava a Assunção da Virgem. Era lá pelos idos de 1830, talvez... De que servem os calendários, se o espírito guarda as emoções e as marcas, mas se esquece quais são os tempos?! Tempo é convenção humana, inventada para ajudar os mortais a seguirem seus rumos sem enlouquecerem.
Pelas ruelas estreitas, a procissão passava. A imagem da Virgem ia à frente, em seu andor. Enfeitada com ouros, brocados e sedas caras; suas lágrimas eram de diamantes. Era isso que os endinheirados faziam: vestiam a estátua da Virgem, mas jamais lhe copiavam o exemplo; cobriam de ouro aquelas imagens, fazendo delas ídolos de sua ostentação. Na tola esperança de com isso, comprar no céu uma herdade cheia de vassalos... Lógico, onde já se viu? Deus criou os ricos para serem ricos, e os pobres para dependerem de quem tem! Como poderia haver um céu sem classes sociais? Era isso que os nossos ouviam deles, quando íamos ler a sina nas cozinhas dos castelos, ou nas tavernas, e ríamos. Ríamos a valer dessa imbecilidade. E eles nos temiam. Diziam que tínhamos parte com o demônio... Eles achavam que tudo que vinha do Oriente era pecaminoso. Afinal, o Oriente era o berço de práticas diferentes, e essas pessoas de lá eram pagãs! Não eram cristãs, não seguiam a única verdade: a Santa Madre Igreja instituída pelo próprio Jesus e confiada ao apóstolo Pedro, mesmo ele sendo um pusilânime que negou seu Mestre por três vezes seguidas! Se os nossos vinham do Oriente, vinham da Pérsia e da Babilônia, éramos também pecaminosos, já que em nosso coração não adentrara ainda a presença da Igreja, com suas garantias de um céu cheio de anjos após a morte.
A procissão seguia, engalanada, e o povo achando que o Oriente era satânico, se esquecendo que o Oriente havia feito de Andaluzia um pólo cultural e comercial. Que as construções andaluzas e mesmo muito da identidade do povo se devia à orientalização de sua história, quando “os orientais”, com pouquíssimos homens, atravessaram a nado e tomaram aquelas terras, fazendo delas um riquíssimo país. Esqueciam disso, os parvos... Os lerdos... Esqueciam que os nossos sabiam disso, pois que as histórias eram contadas de boca-em-boca, de geração para geração, em volta das fogueiras, entre as danças e os vinhos, quando os nossos se enfiavam nas cavernas para não serem mortos... E o povo, mesmo ali, rezando ou fingindo que rezando, esquecia-se que aquele homem com a cruz, e sua belíssima mãe também eram do Oriente...
Gargalhei enquanto pensava nisso tudo. Decididamente, eu amava aquele ato de fé. Amava a Virgem e seu Filho, devia a eles a gratidão pelas tantas vezes em que lhes roguei força para suportar as dificuldades de viver de terra em terra, para suportar os maus-tratos dos outros e as desconfianças... Para suportar as calúnias e difamações que os meus enfrentavam, já que nem da catedral podíamos entrar. Se quiséssemos rezar, que fosse na procissão, junto com os outros, os que nos espezinhavam todos os dias, e os que faziam isso ali, debaixo do nariz da Virgem. Eu tinha gratidão e respeito ao Cristo dos Ciganos... Mas não pude deixar de rir ao concluir isso tudo. Eu amava o ato de fé, mas odiava a estrutura que o mantinha. Odiava aquela igreja porca que incentivava o povo a nos fechar as portas. Odiava-a!
Minha avó, quase centenária, ao meu lado, me censurou:
- Hombre! Não rias! Ou os payllos pensarão que estamos rindo deles! – e, numa risada, continuou: - Se não rezas com fé, a Virgem não atende teu pedido...
Não entendi o acento que ela usou, não entendi a inflexão de sua voz... Doña Zoraya, sempre com suas frases dúbias... Acredito que ela estivesse pensando nas mesmas coisas que eu, talvez. Eu segurava o braço dela. Na outra mão, ela segurava o terço de moedas, e a mãozinha de minha filha, que, olhinhos brilhantes, acompanhava a tudo com seu ar infantil e feliz.
- Pai! Eu quero ver a Santa! – ela falou, me encarando com seus olhos inocentes. Como eu amava aquela criaturinha, era a coisa mais importante da minha vida!
Foi Doña Zoraya quem lhe respondeu:
- Acalma-te, Nena! Não se pode ver a Santa, ainda... ela está à frente, escoltada pelos toureiros!
- Pelos toureiros?
- Sim, niña... A Virgem de Sevilla também é protetora dos toureiros. Eles rezam à ela antes de entrar na arena, para que ela os proteja e os conserve vivos depois do combate com o touro, na Plaza.
A criança abaixou a cabeça, e pensou. Levantou e me olhou, fez menção de falar, olhando para mim e para a velha, mas calou-se, ensimesmada.
- Que passa, minha jóia? Em quê pensas? – eu disse. Essa niña era terrível. Quando se punha a cismar, todos na tribo sabíamos que ela falaria algo que estava anos-luz de distância de nossa compreensão. Apesar do bulício da multidão, quis ouvi-la. Peguei-a no meu colo, e ela começou:
- Eles rezam para ficar vivos, mas tiram a vida dos touros! Isso é errado!
Olhei para minha avó e levantei a sobrancelha. Era a mais pura verdade, como sempre. Essa menina parecia adulta! Por vezes, sua sabedoria inata me assustava... ela era apenas uma criança!
- Quando cresceres, queres bailar na Plaza de Toros? É bonito, é grande... – perguntei, para testar onde essa meninota de seis luas-grandes queria chegar.
- De jeito nenhum! Não gosto de ver animais morrendo. E também não quero ver homens morrendo! Se um touro espeta o toureiro com os chifres, ele morre! Porque os payllos gostam tanto de ver morte?!
Calei-me; que argumentos eu e a velha Zoraya teríamos para isso? Nenhum. Mudei de assunto:
- Estamos quase chegando perto do andor da Virgem.
Ela pareceu animar-se mais, e sorriu para mim, com seus olhos aveludados e sonhadores... Por fim, chegamos perto do andor da Virgem. Vimos de longe a estátua balouçando entre a multidão de fiéis, que tocavam o andor na tentativa de se curar de suas dores físicas e morais. Atrás do andor, vários jovens toureiros, que com suas capas rubras em torno dos ombros e chapéus no peito, velavam, compenetrados.
Andávamos atrás deles... Minha filha olhava para as roupas deles maravilhada. Como eram brilhantes e bonitas! Doña Zoraya sorria, caminhando devagar e rezando baixinho, com certeza por nós todos, como era seu costume...
- É uma pena eles usarem uma roupa tão bonita para fazerem uma coisa tão feia.
Minha filha falou isso alto, um dos toureiros ouviu. E olhou para trás, nos censurando. Decididamente, ela odiava touradas, mesmo eu nunca a tendo levado em nenhuma. Eu e "el cuadro de flamenco" já havíamos dançado em algumas Plazas, mas eu nunca a levava... Ela era muito pequena, e tudo estava sempre muito cheio... Eu sempre temi que algo acontecesse com ela. No acampamento e nas cuevas, ela estaria mais segura, entre os nossos.
- Niña... aquieta-te! As pessoas querem rezar! – eu falei.
Ela, obediente como sempre, calou-se, e olhava tudo a seu redor, com sua curiosidade infantil. Sem querer, ela pisou na capa de um toureiro de azul, que estava imediatamente à nossa frente. Mesmo leve, ele sentiu, e olhou para trás. Olhou para a pequena, e deu sorriso, enquanto ela se desculpava. Olhou para Doña Zoraya, e por fim, olhou para mim.
- Abuela... me esperes na entrada da igreja, no fim da procissão. Venho buscá-las... Depois que isso tudo acabar; tenho negócios a tratar... Plata... Plata...
Minha avó me olhou com aqueles olhos indecifráveis, e nada disse. Apenas acenou afirmativamente com a cabeça, e segurou com mais força a mãozinha da bisneta. Elas sabiam se cuidar muito bem, eram fortes... E eu tinha que sair dali. Tinha que sair dali!
LA SAETA
¿Quién me presta una escalera
para subir al madero
para quitarle los clavos
a Jesús el Nazareno?
Oh, la saeta, el cantar
al Cristo de los gitanos
siempre con sangre en las manos,
siempre por desenclavar.
Cantar del pueblo andaluz
que todas las primaveras
anda pidiendo escaleras
para subir a la cruz.
Cantar de la tierra mía
que echa flores
al Jesús de la agonía
y es la fe de mis mayores.
¡Oh, no eres tú mi cantar
no puedo cantar, ni quiero
a este Jesús del madero
sino al que anduvo en la mar!

