O boêmio estremeceu. Conhecia bem aquele ritual, onde o fetiche permanecia entre as brasas sem se consumir, e da mesma forma acontecia com o ser a quem o feitiço era destinado, que ardia em febre enquanto durasse a força impregnada ali. Zoltan se preocupou deveras. Nahema garantiu-lhe que nada aconteceria com a caravana. Levou-o ao outro extremo da clareira, onde mostrou a ele um espaço no chão. Um círculo com uma estrela-de-cinco-pontas, dentro da qual estava desenhado o símbolo pessoal daquele grupo. Compondo o feitiço de proteção, haviam outros elementos que Zoltan não viu. Ela ainda pegou uns ramos de ervas aromáticas, queimou na chama da tocha e passou a fumaça em círculos pelo ritual, assoprando-as e recitando um encantamento que pedia que as névoas cobrissem o acampamento dos maus olhos do Bispo.
Zoltan se tranquilizou. Sabia que nada aconteceria. Despertou Pièrre e saiu com ele dali o mais rápido possível. Partiram a cavalo, ainda de madrugada. Quando a febre cedeu, o Bispo se reanimou e vestiu sua melhor roupa, e foi com grande tumulto e empáfia que reuniu o pequeno exército para a sua santa missão. A idéia era capturar o bandido Centauro e aprisionar também o seu cúmplice, que o havia ocultado. Atearia fogo na caravana circense, expulsando aqueles mendigos errantes dali. À tarde, rezaria sua solene missa de forma truinfal, divulgando a prisão dos ladrões da sagrada relíquia e expondo-os às exprobrações do populacho, que se quedaria enraivecido. E em Paris completaria a sua vingança, pendurando no cadafalso aquele árabe desgraçado, juntamente com seu amante boêmio e a maldita rameira Marie du Pax.
Pela estrada, o Bispo estava tão imerso em seus planos de vingança que não conseguia pensar em outra coisa. Parou frente ao acampamento, os homens armados o escoltavam, e antes que os errantes pudessem tomar qualquer atitude, tudo foi revirado. E eles se desesperaram, alguns homens tentaram a defesa, e uma luta começou entre a Guarda e os boêmios. Nada foi achado. Zoltan e Centauro há muito haviam deixado o local... Os próprios guardas, ao verem que tudo estava na mais perfeita ordem, e que mulheres e crianças choravam assustadas, acharam que o Bispo estava fora de si. Podia ter confundido com um dos errantes o tal ladrão. Eles eram tão parecidos entre si, como aquele padre louco podia ter tanta certeza? O seu escudeiro era um parvo, tão inútil como ele próprio, como confiar?
- Senhor Bispo! - disse-lhe Nahema, fingindo um ar de fé. - Aqui nunca esteve quem procuras. Deves estar nos confundindo com a caravana que aqui estava até ontem...
O Bispo se irritou:
- Não sejas cínica, sua egípcia imunda! Ainda esses dias te vi, aqui nesse mesmo lugar, a dançar como uma perdida com um dos homens que procuro!
Nahema começou a chorar copiosamente.
- Sou tão devota da Virgem, Senhor... Admiro tanto a Igreja e respeito seus servidores... Por que dizeis que sou perdida? Acaso não sabes que vivemos em peregrinação? A Virgem também não foi errante, quando perseguida por Herodes? Eu tenho culpa de ter nascido pária? Amo a Deus!
Face as lágrimas tão "sinceras" da jovem, o Bispo contemporizou:
- Eu sei, filha. Me perdões. Mas eu te vi com o homem que procuro.
- Impossível... - e ela pensou um pouco, antes de falar: - A menos que me tenhas confundido com minha irmã. Minha mãe teve duas filhas idênticas, de uma só vez. Eu, que sou Nazira, e ela, que é Najara. Ela é casada, e estava com o seu grupo circense aqui até poucos dias. Somos inocentes!
Ela falava com tanta ênfase, e entre tantas lágrimas, e invocando tantos santos, que o Bispo se convenceu. Era noite e ele podia mesmo ter confundido as coisas. Aquele excesso de cores em meio à parca luz tê-lo-ia confundido. E em dois dias, eles podiam mesmo ter se evadido dali. Se as caravanas eram de parentes, algo comum nessas malditas trupes de circo, isso era bem possível. Não podia perder tempo. Se corresse com os homens, ainda os encontraria na estrada, ou em alguma aldeia logo a frente.
- Sabes para onde eles seguiram?
- Para o sul...
Ele pensou: então foram para o norte. Essa egípcia infeliz é uma idiota, mas nunca entregaria a própria família. Virou as costas e deu ordem aos homens para que se afastassem, pegariam a estrada. Nahema chamou-lhe:
- Senhor Bispo...
Ele olhou para trás:
- Dize.
- Sua benção?
- Que seja! Deus te abençõe, filha! - e fez um sinal-da-cruz na direção da boêmia, parada de mãos postas em oração, à sua frente. Olhos fechados e expressão compungida, ela fez o pelo-sinal e suspirou.
Assim que eles sumiram na estrada, ela pôs as mãos na cintura e gargalhou alto:
- Lerdo. Imbecil! É tão fácil tapear esses idiotas, ahahahahahahahahahahahahah...
Tirou das dobras dos babados da saia uma cebola, aberta, que atirou longe. E foi até onde estava o boneco do Bispo. Retirou-o da panela, entre conjuros vários, e abriu-lhe a cabeça de pano, esvaziando todo o seu conteúdo. Atirou tudo às chamas da fogueira, gargalhando alto.
- Está feito! Quebrado o vínculo com esse animal. A partir de agora, estou rompendo as cadeias que ligam minha magia à essa pessoa. E que seja o que o destino escrever a ele, vida ou morte!
(CONTINUA...)
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Ficou muito bom o blog! Parabéns!!!
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