domingo, 21 de fevereiro de 2010

ZOLTAN E NAHEMA... parte II

Centauro gostava da vida nômade do circo, já estava aprendendo a se manter, criando seus próprios números para se apresentar com eles. Aos poucos, ia vencendo a desconfiança do bando, que no início lhe votava uma indiferença quase hostil. Seu talento para a arte fez com que os saltimbancos começassem a admirá-lo, e a aceitá-lo como igual naquela difícil vida mambembe. 

Por sua vez, o Bispo, oculto entre as folhagens e arbustos, acompanhado do seu fiel olheiro, a tudo observava, estarrecido. Gente do inferno, praga e escória da humanidade! Eram felizes! Por um momento, por um lapso de segundo, o Bispo teve um repente de consciência e viu que ia cometer uma barbaridade, matando criaturas inocentes, sendo que até velhos e crianças haviam ali. Pessoas que viviam sem-eira-nem-beira levando distração com sua arte, e que, sem saber do dia seguinte, gozavam naquele instante de toda a alegria que lhes brotava da alma. Por um instante, pensou em abandonar o vil projeto, em esquecer aquilo tudo e deixar a França. Podia se estabelecer em Roma, onde talvez tudo fosse mais fácil. Como queria se libertar daquele fogo feroz do ódio que o consumia e punha em brasas todo o seu ser! Será que poderia ser feliz sem esse ódio?! Porém, como uma brisa, ou como um simples caniço em meio à tempestade, essa idéia passou e o Bispo cedeu ao seu egoísmo descentrado, completamente sem forças para resistir aos seus impulsos e mudar. Estava obstinado. Fora até ali para capturar o criminoso, não sairia daquela maldita aldeia sem ele, custasse o que custasse!

Se afastaram dali, sem serem percebidos pelos boêmios, e o Bispo ainda se mantinha pensativo, uma luzinha trêmula, como uma fagulha, insistia em se manter em seu peito, incitando-o a abandonar tão temerário projeto. Ou a simplesmente capturar Centauro sem envolver ou prejudicar aquelas pessoas todas. De volta à casa paroquial, cedida pelo vigário da aldeia, a noite passou lenta para o Bispo de Paris... Seu sono era entremeado por pesadelos, via-se perseguido por sombras negras e sedentas de vingança, , cobrando-lhe coisas que ele nem sabia dever. Era como se ele estivesse agora sendo o réu num dos inúmeros tribunais que presidira. Ao fim do sonho mau, entre torturas atrozes e desesperos mil, uma luz branca surgiu do alto, e uma voz estentórica advertiu:

- Martinho! - no sonho, o Bispo se chocou. Desde a morte dos pais, ninguém o chamava pelo seu nome de batismo. 

Ele se sentiu confuso, olhou para cima, na tentativa de identificar a origem do facho iluminado. A voz repetiu, ainda mais grave:

- Martinho!

O Bispo não identificou, mas sabia que a voz vinha de dentro do clarão que ofuscava suas vistas.

- Te arrependas, Martinho! Pára e pensa, reflete de forma impessoal sobre o que fizestes a vida toda, pede perdão a Deus e a ti mesmo, pede perdão a todos os que magoastes e prejudicastes com teu egoísmo feroz! Concede a ti mesmo, para teu bem e tua melhoria, uma oportunidade de mudares de vida, de reverter tanto ódio em amor, tanta sede de poder em auxílio a teu próximo. Fazei o bem em sinal de reconhecimento à bondade divina, que tudo te concedeu, e na esperança de apagar teus erros pretéritos. Martinho, a verdade te chama! Olha para ela como num espelho, e aprende com isso a derradeira lição! 

Porém, de nada adiantou. O Bispo se manteve na mesma posição. Acordou trêmulo, banhado de suor, parecia que o excesso de luz provindo do facho ainda lhe queimava os olhos. E de certo modo, esse torpor causado pelo pesadelo foi providencial, pois desencadeou uma forte febre, que lhe atacou durante dois dias, impossibilitando-o de seguir adiante. O povo da aldeia comentou a chegada ilustre no dia seguinte, e Nahema descobriu a solene visita quando foi à rua, ler a sina dos curiosos. Sua visão estava certa, o maldito Bispo estava ali! Precisava fazer algo, e urgente! 

Na madrugada, Nahema convenceu o irmão:

- Sei que é amanhã que ele virá. Precisas deixar a caravana o mais rápido possível, com o estrangeiro.

- Não posso! Como deixar aqui desguarnecido, enquanto homens invadem nossos carroções e pilham nossos pertences? O que será de nossa mãe e dos mais velhos? Vou lutar com eles, não posso fugir daqui como um fraco! Sou o líder!

- Somos os líderes. - ela corrigiu, ferina.

- Não posso expô-los assim, Nahema! 

- Já te expusestes em demasia ao trazeres esse homem para cá.

Ele sibilou:

- O que está feito, está feito. E de nada me arrependo. Se eu e Marie não o tivéssemos salvo, ele teria sido executado como um criminoso que não é. - e vociferando com ódio: - Maldito Bispo! Era só o que me faltava! Que os nossos paguem pelos meus desvarios! Isso não pode acontecer, Nahema.

- Nada acontecerá. Fujas, e quando estiver tudo em ordem, lhe avisarei. O importante é que o maldito padre não saiba que Centauro aqui esteve o tempo todo. Se o acharem aqui, aí sim é que seremos todos postos a ferros, e sabe lá o que nos aguarda.

- Como me garantes que nada acontecerá?

Ela olhou-o como uma fera. Seus olhos brilharam, rancorosos e enigmáticos. Aquela mulher era perigosa.

- Vem comigo. - ela disse, pegando uma tocha e puxando Zoltan pela mão. 

Nahema levou-a até uma clareira próxima aos limites do acampamento. Estacou defronte a uma imensa árvore, debaixo da qual repousava uma enorme panela de cobre. Com o auxílio da tocha, ela olhou dentro dessa panela e conferiu o conteúdo. Soltou um grito:

- Depressa! O tempo está se escoando!

Zoltan não compreendeu. Nahema, então, mostrou-lhe o conteúdo da panela: um boneco de pano usando insígnias sacerdotais levemente chamuscado entre as últimas fagulhas de um monte de carvões em brasa!

- Causei uma febre no maldito para ganharmos tempo! Mas a força do ritual está se perdendo, ele deve estar se recuperando. Tem proteção dos maus gênios, que inferno!

(CONTINUA...)

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