quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

ZOLTAN E NAHEMA... parte I

(...) Chegaram ao acampamento. Viram os cavalos, as carroças, as tendas... Os boêmios estavam sentados em volta de uma fogueira. Próximo a um carroção, idosa mulher de enigmático olhar contava algo a algumas crianças, que lhe escutavam com grande atenção. Num canto, um senhor com um acordeon; próximos, estavam seus filhos, todos parecidos entre si e com ele. Um com um banjo, outro com um violino e o terceiro com um pequeno tambor, que por vezes trocava por uma flauta. Todos cantavam numa língua gutural e exótica, totalmente desconhecida. Uma certa música começou, a princípio lenta e cadenciada. Ao reconhecerem-na, alguns boêmios, que riam às gargalhadas, taças de bebida entre os dedos, se puseram a bater palmas, e a gritar:

- Zoltan! Zoltan! Zoltan! Zoltan!

E só se calaram quando, escancarando a entrada de uma das tendas, um boêmio apareceu. Belíssimo, a tez queimada pelo sol contrastava com o cobre dos cabelos e da barba, os olhos verde-escuros pareciam olhos de serpente. Vestia uma bela camisa de seda amarela, e todo o seu ser rebrilhava de jóias e mistérios. Sua aparição brusca causou ainda mais gritos de comemoração e aplausos. Andando no ritmo da música, o jovem passava atirando beijos às moças, distribuindo sorrisos aos músicos, flertava até com os casais. Abraçava as crianças, assentia com a cabeça aos idosos... Zoltan se posicionou no meio dos expectantes e começou a dançar. A postura arrogante, os braços erguidos, o caminhar firme, os pulos selvagens, o olhar que evocava todo o mistério de uma raça oriunda dos tempos orientais antigos...

À medida que a música se tornava mais célere, o povo acompanhava com palmas e gritos acalorados. Um pandeiro foi jogado para Zoltan, que, nos passos improvisados de sua dança, batia com ele ritmada e freneticamente. A um sinal dele, uma jovem de rara e estranha beleza, olhar bravio como o de uma fera, levantou-se e colocou-se à sua frente, arrogante, mãos à cintura, postura altiva em atitude expectante. Zoltan convidou-a a dançar, com um sorriso. Ela entrou no meio da roda, em volta do fogo, agitando febrilmente a saia rodada e escandalosamente colorida. Havia força e fúria em sua dança selvagem, aquela boêmia transbordava sensualidade e lascívia. O bailado dos dois parecia um duelo de forças que se enfrentam e ao mesmo tempo se complementavam. A moça tinha os mesmos olhos verdes de serpente, os cabelos eram um pouco mais escuros que os de seu par, mas pela semelhança de ambos, era claro que eram irmãos, na dança se portavam como tal.

A música se intensificava, se transformava numa sarabanda infernal, linda e única, como único era aquele momento. No último acorde, o fim da dança e os gritos ruidosos do povo. Ainda se mantinham nos rostos afogueados do casal de irmãos o brilho febril dos olhos e o sorriso malicioso, cheio de perigos mil. Abraçaram-se em sinal de agradecimento mútuo, e foram sentar-se, para comer e beber, e aproveitar o resto da noite. Outros casais e jovens sozinhas puseram-se a dançar, uma nova música inundou o ar.

- Centauro não tirava os olhos de ti enquanto bailavas. - ela começou, ferina.

- Não digas isso. Podem ouvir-te e compreender mal o tom de teu comentário desairoso. - ele censurou, levemente, ao mesmo tempo que em seu íntimo sentia uma ponta de satisfação que tentava ocultar. - Ele gosta de nossa dança. Quem garante que não olhava para ti?

Ela gargalhou, irônica:

- Não sejas tolo. Ele já te observava bem antes de eu entrar, e mesmo após, te devorava com os olhos. Pusestes algum feitiço nesse estrangeiro?!

Zoltan não respondeu. Ante o silêncio, que a moça interpretou como uma afirmativa, ele considerou:

- Nahema, Nahema! Estás enciumada?

Nahema se fez rubra. Empertigou-se toda e respondeu, altiva e segura como uma criança birrenta:

- De modo algum. É que os nossos já comentam. Esses dias, escutei a tua Letícia insinuar algo. - e fez uma cara de nojo, referindo-se à cunhada, que heroicamente sempre havia superado as infidelidades de Zoltan. - Tomes cuidado, meu irmão. Ela anda estranha ultimamente, tenho a certeza de que te deixará. Penses nisso, ou perderás teus filhos! Achas acaso que as paixões loucas a que te entregas compensam certas perdas? 

- Jamais.

Nahema silenciou, mas sem entender se essa frase dava conta de que ele concordava com o raciocínio dela, ou se era uma negação de que ele poderia ser abandonado por aquela antipática, que ele recolhera quase que da rua, uma mulher do povo, que não era artista como eles! Uma camponesa, católica, que horror! Odiava a cunhada, mas se preocupava com o irmão e com os sobrinhos. Ela continuou, vendo que ele suspirou, pensativo:

- Deverias ter te casado com Madeleine. É berrante o teu apreço por ela, e é imenso o amor dela por ti. Somente ela compreenderia e aceitaria a forma louca como vives. Todos os que os olham sabem que foram talhados um para o outro. Quando tu e ela dançam, o povo enlouquece. Se pedisses, até pagariam. Eu não gosto dela, mas sou obrigada a concordar que ela é o único par possível para ti. E agora, à revelia de tudo o que estamos acostumados a ver, tu trazes do nada um estrangeiro, e com ele vives como se fossem... irmãos!

- Tu és minha irmã. Apenas e unicamente tu, já que fomos gerados no mesmo ventre e ao mesmo tempo. Estás satisfeita?

Ela sorriu, enquanto ele lhe afagava a fronte.

- Nunca pensei que os desvarios do meu coração te preocupassem tanto, Nahema! - ele sorriu, irônico. - Mas deixemos eles para lá. Falemos agora dos teus.

A boêmia beliscou-o de leve:

- Não me provoques. O que eu queria dizer-te antes de tudo é que talvez seja perigoso esse Centauro, ou Pièrre, não sei, estar entre nós, sendo que sabemos que ele é procurado a peso de ouro.

- E queres vendê-lo? - Zoltan se ofendeu.

- Jamais faria isso. Por tua causa, e não por ele. Apenas te digo que sonhei que a caravana seria incendiada, e um homem da Igreja nos punha a ferros, depois de prender-te e ao Centauro. Sabes que tenho o dom da visão, eu nunca errei!

Zoltan estremeceu. Seu semblante se tornou grave. Era verdade: toda vez que Nahema previa algo com tanta ênfase, era fato que acabava por acontecer. E tanto assim era que o povo a temia, pois nunca se sabia se o fato desafortunado se sucedera por conta do desejo dela, ou se simplesmente era um aviso. 

- Nahema! Se o Bispo estivesse perto daqui, por certo Marie nos mandaria avisar. 

- Confias demais nessa rameira.

Um único olhar de Zoltan para Nahema, igualando-a a Marie pôs fim à conversa. Mudaram de assunto, e depois que acabaram as músicas, se recolheram às suas barracas. Mas é lógico que Zoltan, assim que amanhecesse tomaria todas as providências necessárias para evitar infortúnios. (...)

*******

Esse texto faz parte de uma das tramas que compõem um romance no qual estou trabalhando... CONTINUA... (risos)

Nenhum comentário:

Postar um comentário