(...) Sarita saiu, e Juan aproveitou a presença de Karlos para ensaiar uma dança que estava montando para a próxima apresentação na taverna. Perto do carroção, o jovem guitarrista sentou-se, e iniciou uma música de toque triste e singelo, mas com uma profundidade imensa. Da mesma forma, no tablado improvisado, Juan também começou a sua dança, como se estivesse se relembrando de um pesar, ou se sentindo impossibilitado de lutar contra o futuro. Depois da introdução, na qual o cigano caminhava pelo tablado, cada passo no mesmo ritmo de cada acorde, de cada nota, a música se tornou mais rápida, mais compassada. E acompanhando essa densidade toda, o sapateado se tornava mais marcado, mais pesado, como se manifestasse revolta. Era uma espécie de diálogo entre o violão e o sapateado.
Ao fundo, Zoraya assistia à dança de Juan, absorta nos menores detalhes. Lembrava-se com infinito carinho de tê-lo ensinado os primeiros passos. Os primeiros passos para caminhar, e depois disso, para dançar. De onde estava, gritou para o neto:
- Juan! Aire! Aire! Faças o golpe com mais força!
Ele, sem parar, respondeu à velha:
- Estou batendo, abuela. A marcação dos pés condiz com os acordes. Está certo!
- Não, Juan. Está com uma pequena diferença, ela é quase imperceptível, mas existe. Corrija-a, e não te esqueças do ritmo: um, dois, três, um, dois. Um, dois, três, um, dois. Ida, volta. Volteio, palma! Corrijas a postura! Altivo! Forte!
O cigano reiniciou a dança, com o sapateado mais pesado, mais marcado, os braços erguidos, a expressão densa e sofrida. Karlos também modificou o tempo, acalmando o ritmo, atento para que a sincronia de ambos ficasse perfeita.
- Mais força, Juan! Para atraires os poderes da terra, e para que ela filtre as tuas energias!
- Abuela! Os pés são meus! Deixa-me dançar como sei, deixa-me ouvir a música e fazer com que ela se torne parte minha!
Zoraya, que já esperava pela resposta dada, sorriu. Altaneira, chegou perto de Karlos e afastou delicadamente Juan para um canto. O jovem músico reiniciou a melodia, e a velha bailou-a com graça e leveza, mas com a força necessária à expressão de dor que aquele baile por seguiriya exigia... Bailava com o seu mantón verde franjado, seus braços erguidos pareciam asas que buscavam a liberdade do céu, e seus pés pareciam presos à terra, incitando a revolta da música, a revolta daquele ritmo que apenas falava de dor, saudade e prisão... Chamou Juan, com um gesto, e começou a acompanhar seus passos, corrigindo-o. O jovem sorriu ante a alegria da velha em poder ensiná-lo, e arrependeu-se por ter-lhe respondido mal. Era um tesouro tê-la ali, ensinando a arte do baile, o sentir, a resgatar o que a música gritava, transformando essa melodia em gestos. Dando vida à alma dos antepassados, através de seu legado mais importante: el duende! Juan se esmerou em dançar com ela havia ensinado, em marcar bem o movimento e a batida dos pés, em manter a pose segura e altiva, como se estivesse se impondo a todos os que discriminam os gitanos, todos os dias. Afinal, era uma seguiriya... Abraçou a avó com carinho, e ela explicou-lhe:
- Quando fores bater o pé, lança para a terra tudo o que te aflige. Peças à ela que tua vida sempre floresça, e que tuas energias sejam filtradas. Peças estabilidade e coragem para enfrentar esse mundo que não gosta dos nossos, e que não suporta nada que se seja diferente. Quando levantares os braços, lembra-te que isso é um pedido ao Pai Celeste, e um agradecimento à benção de poder dançar. Os braços pro alto representam a certeza de que é para a frente que se anda, que devemos ter o pés bem fincados na terra, mas que a mente é livre para buscar e alcançar o infinito, já que somos livres! Compreendes a força de nossa dança?
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