quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Sevilla...

Sevilha se veste de gala! Naquela tarde, passava das seis horas e o sol ainda brilhava... O coração de Andaluzia comemorava a Assunção da Virgem. Era lá pelos idos de 1830, talvez... De que servem os calendários, se o espírito guarda as emoções e as marcas, mas se esquece quais são os tempos?! Tempo é convenção humana, inventada para ajudar os mortais a seguirem seus rumos sem enlouquecerem.

Pelas ruelas estreitas, a procissão passava. A imagem da Virgem ia à frente, em seu andor. Enfeitada com ouros, brocados e sedas caras; suas lágrimas eram de diamantes. Era isso que os endinheirados faziam: vestiam a estátua da Virgem, mas jamais lhe copiavam o exemplo; cobriam de ouro aquelas imagens, fazendo delas ídolos de sua ostentação. Na tola esperança de com isso, comprar no céu uma herdade cheia de vassalos... Lógico, onde já se viu? Deus criou os ricos para serem ricos, e os pobres para dependerem de quem tem! Como poderia haver um céu sem classes sociais? Era isso que os nossos ouviam deles, quando íamos ler a sina nas cozinhas dos castelos, ou nas tavernas, e ríamos. Ríamos a valer dessa imbecilidade. E eles nos temiam. Diziam que tínhamos parte com o demônio... Eles achavam que tudo que vinha do Oriente era pecaminoso. Afinal, o Oriente era o berço de práticas diferentes, e essas pessoas de lá eram pagãs! Não eram cristãs, não seguiam a única verdade: a Santa Madre Igreja instituída pelo próprio Jesus e confiada ao apóstolo Pedro, mesmo ele sendo um pusilânime que negou seu Mestre por três vezes seguidas! Se os nossos vinham do Oriente, vinham da Pérsia e da Babilônia, éramos também pecaminosos, já que em nosso coração não adentrara ainda a presença da Igreja, com suas garantias de um céu cheio de anjos após a morte.

E mesmo eles achando que tínhamos parte com o diabo, estávamos lá, naquela procissão. Cada um com seu coração ligado na figura dos ícones que seguiam à frente das pessoas: a virgem em lágrimas, atrás de seu filho, o Cristo dos Ciganos, vestido de púrpura, carregando sua cruz, as faces marcadas pela dor e pelo sangue que derramou. Como um ídolo... Os mais simples diziam: “como o Cristo sofreu! Por nós!”. Os ricos olhavam para baixo... afinal, estavam cumprindo com seus deveres todos os meses; se confessavam e pagavam regiamente a quantia mensal que servia para o mantenimento da catedral. De outro lado, nós, que sentíamos uma espécie de nostalgia, de saudade... Que víamos a história daquele Mestre como uma das coisas mais lindas que já ouvimos... E assim, seguíamos na procissão... Muitos se afastavam de nós, com medo ou com ódio, esquecendo por um momento onde estavam, e esquecendo que, na frente daquele andor estava a imagem que representava um homem sábio e puro, no momento mais difícil de sua vida. Muitos apenas reparavam nas vestes dos ricos, comentavam sobre o luxo das imagens e sobre o espalhafato com que nós, os errantes, nos ornávamos. Esqueciam o fundamental: que na frente daquele andor, estava a representação de um homem que se atreveu a dizer que somos todos livres, iguais e que devemos amar! Esquecendo-se do exemplo da mãe desse homem, que o educou e que, mesmo em seu desespero, ergueu os olhos aos Céus e pediu a Deus a piedade por todos que praticavam suas injustiças... O tempo havia passado e as injustiças se mantinham, e ainda mais ferozes... Que ironia!

A procissão seguia, engalanada, e o povo achando que o Oriente era satânico, se esquecendo que o Oriente havia feito de Andaluzia um pólo cultural e comercial. Que as construções andaluzas e mesmo muito da identidade do povo se devia à orientalização de sua história, quando “os orientais”, com pouquíssimos homens, atravessaram a nado e tomaram aquelas terras, fazendo delas um riquíssimo país. Esqueciam disso, os parvos... Os lerdos... Esqueciam que os nossos sabiam disso, pois que as histórias eram contadas de boca-em-boca, de geração para geração, em volta das fogueiras, entre as danças e os vinhos, quando os nossos se enfiavam nas cavernas para não serem mortos... E o povo, mesmo ali, rezando ou fingindo que rezando, esquecia-se que aquele homem com a cruz, e sua belíssima mãe também eram do Oriente...

Gargalhei enquanto pensava nisso tudo. Decididamente, eu amava aquele ato de fé. Amava a Virgem e seu Filho, devia a eles a gratidão pelas tantas vezes em que lhes roguei força para suportar as dificuldades de viver de terra em terra, para suportar os maus-tratos dos outros e as desconfianças... Para suportar as calúnias e difamações que os meus enfrentavam, já que nem da catedral podíamos entrar. Se quiséssemos rezar, que fosse na procissão, junto com os outros, os que nos espezinhavam todos os dias, e os que faziam isso ali, debaixo do nariz da Virgem. Eu tinha gratidão e respeito ao Cristo dos Ciganos... Mas não pude deixar de rir ao concluir isso tudo. Eu amava o ato de fé, mas odiava a estrutura que o mantinha. Odiava aquela igreja porca que incentivava o povo a nos fechar as portas. Odiava-a!

Minha avó, quase centenária, ao meu lado, me censurou:

- Hombre! Não rias! Ou os payllos pensarão que estamos rindo deles! – e, numa risada, continuou: - Se não rezas com fé, a Virgem não atende teu pedido...

Não entendi o acento que ela usou, não entendi a inflexão de sua voz... Doña Zoraya, sempre com suas frases dúbias... Acredito que ela estivesse pensando nas mesmas coisas que eu, talvez. Eu segurava o braço dela. Na outra mão, ela segurava o terço de moedas, e a mãozinha de minha filha, que, olhinhos brilhantes, acompanhava a tudo com seu ar infantil e feliz.

- Pai! Eu quero ver a Santa! – ela falou, me encarando com seus olhos inocentes. Como eu amava aquela criaturinha, era a coisa mais importante da minha vida!

Foi Doña Zoraya quem lhe respondeu:

- Acalma-te, Nena! Não se pode ver a Santa, ainda... ela está à frente, escoltada pelos toureiros!

- Pelos toureiros?

- Sim, niña... A Virgem de Sevilla também é protetora dos toureiros. Eles rezam à ela antes de entrar na arena, para que ela os proteja e os conserve vivos depois do combate com o touro, na Plaza.

A criança abaixou a cabeça, e pensou. Levantou e me olhou, fez menção de falar, olhando para mim e para a velha, mas calou-se, ensimesmada.

- Que passa, minha jóia? Em quê pensas? – eu disse. Essa niña era terrível. Quando se punha a cismar, todos na tribo sabíamos que ela falaria algo que estava anos-luz de distância de nossa compreensão. Apesar do bulício da multidão, quis ouvi-la. Peguei-a no meu colo, e ela começou:

- Eles rezam para ficar vivos, mas tiram a vida dos touros! Isso é errado!

Olhei para minha avó e levantei a sobrancelha. Era a mais pura verdade, como sempre. Essa menina parecia adulta! Por vezes, sua sabedoria inata me assustava... ela era apenas uma criança!

- Quando cresceres, queres bailar na Plaza de Toros? É bonito, é grande... – perguntei, para testar onde essa meninota de seis luas-grandes queria chegar.

- De jeito nenhum! Não gosto de ver animais morrendo. E também não quero ver homens morrendo! Se um touro espeta o toureiro com os chifres, ele morre! Porque os payllos gostam tanto de ver morte?!

Calei-me; que argumentos eu e a velha Zoraya teríamos para isso? Nenhum. Mudei de assunto:

- Estamos quase chegando perto do andor da Virgem.

Ela pareceu animar-se mais, e sorriu para mim, com seus olhos aveludados e sonhadores... Por fim, chegamos perto do andor da Virgem. Vimos de longe a estátua balouçando entre a multidão de fiéis, que tocavam o andor na tentativa de se curar de suas dores físicas e morais. Atrás do andor, vários jovens toureiros, que com suas capas rubras em torno dos ombros e chapéus no peito, velavam, compenetrados.

Andávamos atrás deles... Minha filha olhava para as roupas deles maravilhada. Como eram brilhantes e bonitas! Doña Zoraya sorria, caminhando devagar e rezando baixinho, com certeza por nós todos, como era seu costume...

- É uma pena eles usarem uma roupa tão bonita para fazerem uma coisa tão feia.

Minha filha falou isso alto, um dos toureiros ouviu. E olhou para trás, nos censurando. Decididamente, ela odiava touradas, mesmo eu nunca a tendo levado em nenhuma. Eu e "el cuadro de flamenco" já havíamos dançado em algumas Plazas, mas eu nunca a levava... Ela era muito pequena, e tudo estava sempre muito cheio... Eu sempre temi que algo acontecesse com ela. No acampamento e nas cuevas, ela estaria mais segura, entre os nossos.

- Niña... aquieta-te! As pessoas querem rezar! – eu falei.

Ela, obediente como sempre, calou-se, e olhava tudo a seu redor, com sua curiosidade infantil. Sem querer, ela pisou na capa de um toureiro de azul, que estava imediatamente à nossa frente. Mesmo leve, ele sentiu, e olhou para trás. Olhou para a pequena, e deu sorriso, enquanto ela se desculpava. Olhou para Doña Zoraya, e por fim, olhou para mim.

- Abuela... me esperes na entrada da igreja, no fim da procissão. Venho buscá-las... Depois que isso tudo acabar; tenho negócios a tratar... Plata... Plata...

Minha avó me olhou com aqueles olhos indecifráveis, e nada disse. Apenas acenou afirmativamente com a cabeça, e segurou com mais força a mãozinha da bisneta. Elas sabiam se cuidar muito bem, eram fortes... E eu tinha que sair dali. Tinha que sair dali!

Agora estou aqui, numa das ruelas estreitas... entre os vãos das paredes e os becos. A noite está quase caindo... E eu aqui estou, à espera... Será que estou certo no que vi? Ou será que me enganei?

*******



Para ilustrar meu conto, estão dois vídeos que amo... Esse tangos que é lindíssimo, com cenas de Sevilla antiga, e falando das praças de touros... Eu, sinceramente, sou radicalmente CONTRA as carnificinas das touradas... Acredito que esse "espetáculo" deveria ser realmente transformado e re-adaptado, de modo a virar mesmo um espetáculo, que mantivesse a simbologia original: o pensamento contra o instinto... Sabendo que ambos são fortes e sempre estarão presentes na psiquê humana... Eu me pergunto: para quê assassinar e despedaçar um touro? Isso tem que acabar... Coloquei também um vídeo da Saeta do Cristo dos Gitanos, cantada pelo meu ídolo Camarón de La Isla... Eu não sou cristão, mas isso mexe comigo... traz uma lembrança, uma saudade... Enfim! Diz a explicação oficial:

"La saeta é um tipo de composição de quatro a cinco versos octassílabos e de conteúdo religioso dedicado à Virgem e a Jesus. Sua origem está em cântigos que algumas ordens religiosas entoavam nos séculos XVI e XVII. Nas procissões da Semana Santa na região da Andaluzia, na Espanha, especialmente na cidade de Sevilha, são os ciganos que cantam la saeta a cada estação da Via Sacra. A mais famosa saeta tem letra do poeta Antônio Machado e música de Juan Manoel Serrat."

LA SAETA

Dijo una voz popular:
¿Quién me presta una escalera
para subir al madero
para quitarle los clavos
a Jesús el Nazareno?

Oh, la saeta, el cantar
al Cristo de los gitanos
siempre con sangre en las manos,
siempre por desenclavar.

Cantar del pueblo andaluz
que todas las primaveras
anda pidiendo escaleras
para subir a la cruz.

Cantar de la tierra mía
que echa flores
al Jesús de la agonía
y es la fe de mis mayores.

¡Oh, no eres tú mi cantar
no puedo cantar, ni quiero
a este Jesús del madero
sino al que anduvo en la mar!

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