segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Afrodite e a gata...

Conta-nos o célebre Esopo uma fábula mitológica maravilhosa, cuja sabedoria se encaixa e se aplica para qualquer época, pois que a psiquê humana é atemporal...

E eis que um dia, uma gata se apaixonou pelo seu dono, que era um belo rapaz, cheio de qualidades e virtudes. Ele adorava o seu animal de estimação, mas em sua mente sequer podia imaginar a paixão que a gatinha devotava a ele... Cansada e esperançosa, a felina rogou à bela Afrodite, senhora do amor, para que a ajudasse a conquistar o coração de seu amado humano.

Afrodite, que nunca fecha os ouvidos aos apelos dos apaixonados, decidiu auxiliar a gatinha, e transformou-a numa jovem muito formosa... O rapaz, numa certa noite de lua cheia, surpreeendeu aquela moça bonita perdida em seus jardins, e não entendeu nada... Quem ela seria? A troca de olhares fez com que ele se quedasse magnetizado... Os olhos dela eram lindos, brilhantes como a lua no céu. E familiares! De onde ele conhecia aquele olhar? O contato com a moça, que, parecia conhecer-lhe todos os gostos e talentos, que parecia adivinhar-lhe todas as características fez com que ele se apaixonasse loucamente por ela.

A mulher-gata exultou! Era correspondida! Sem mais poder conter a paixão, resolveram se casar. E casaram! E no alto do Olimpo, a grande Afrodite a tudo observava... "Será que a gata tinha mesmo se transformado em mulher?" - a bela deusa pensou, enquanto passava as mãos cheias de anéis pelos longos cabelos sedosos... Levantou a sobrancelha, teve uma idéia...

Na noite de núpcias, Afrodite fez surgir no quarto do casal um rato, e ficou observando sua protegida. Esquecendo completamente onde estava, a bela mulher saltou correndo da cama, perseguindo o camundongo, a fim de devorá-lo. Indignada, Afrodite a fez voltar ao que era: uma gata...

E fica a moral da história: a gente nunca foge daquilo que somos de verdade, não tem como fugir da essência real, por mais que o externo se transforme. E, apesar de ser uma fábula, ela traz em si a simbologia de uma grande verdade: quantas vezes não agimos como a gata? Pedimos aos Céus um amor que nos complete, pedimos aos Deuses e ao próprio Amor uma união perfeita, com a realização de nossos anseios mais elevados... Os Deuses concedem a dádiva. E o que fazemos? Agimos como a gata, querendo o melhor e o mais puro, querendo a nata e o mais alto, sem questionar se merecemos, e se temos mesmo estrutura para o que queremos. Não questionamos se o que queremos é adequado para o nosso momento...

E como a gata da fábula, canso de ver gente jogando fora oportunidades de felicidade duradoura, em detrimento de ratos... Jogando pela janela aquilo que pediram tão ardentemente à Deusa, concentrados em coisas pequenas que já não tem mais espaço no seu presente, coisas que pertencem a um passado. A gata virou humana, e não percebeu! Não percebeu a sorte que teve, sendo ouvida pela Deusa, sendo correspondida pelo homem que era seu sonho, e tendo a sorte maior de casar-se com ele! Quantas vezes, pessoas que se dizem evoluídas e centradas não agem assim, negando sua natureza interna, renegando sua essência em detrimento do que está fora? Não tenho dúvidas de que a gatinha amasse mesmo o seu dono. Não duvido que sua paixão por ele fosse mesmo verdadeira... Acredito que, por mais que amasse, ela não estava preparada para viver isso, para sentir isso de uma outra forma que não fosse pela sua ótica felina. E várias vezes na nossa vida isso acontece: situações que parecem perfeitas, como a moça que conhecia todos os gostos do rapaz... Podia ser um casamento grandioso, se não fosse um único detalhe: um rato! E será que Afrodite foi impiedosa e perversa, transformando de novo em gata a moça? Não! Acho que ela fez certo, pois, se em coisas pequenas, a gata se revelou, o que aconteceria nas grandes, na vida em comum com seu amado? Seria o amor dela tão grande a ponto de fazer com que ela evoluísse a tal ponto? E a Deusa sabe das coisas... Enxerga, sabe o que é melhor para todos... E quantas vezes, Afrodite nos dá, nos tira e nos revoltamos, sem ver que foi o melhor para nós?

Fica aí, para a gente observar... Uma fábula contada na Grécia Antiga, cuja riqueza simbólica é imensa, e se aplica a nós, hoje... Enquanto isso, pedimos também à bela Afrodite, a mais linda Deusa, de vivídos olhos e doce sorriso, que nos ilumine em nossa busca, que nos ajude a ser mais humanos, mais completos, mais belos, melhores...

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