segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Impressionante...

Meu telefone tocou. Consulta às 19 hs. Com certeza marquei, não sou homem de dispensar trabalho. E fui... Cheguei no maldito metrô Barra Funda por volta das 18 hs. Uma visão do inferno... Plataforma lotada, trens passando vazios, grandes intervalos que apenas servem para deixar o paulistano estressado em plena segunda-feira. Em pleno dia primeiro de fevereiro, a trovejar lá fora, denúncia clara de uma tempestade que estava para despencar, como anda acontecendo diariamente... Chuva? Tudo bem... Fenômenos da natureza me assustam bem menos do que certas ações humanas... A chuva é natural, os ventos ventam e o céu escurece. Agora, as pessoas... Perdem em segundos a educação que uma mãe dedicada leva pelo menos vinte anos para transmitir. Enlouquecem nesse circuito de megalópole, onde as coisas são feitas para funcionarem, mas são usadas por pessoas que parecem que não querem que a coisa funcione, só para ter do quê reclamar. É a treva...

Entrei, ou melhor, fui conduzido no meio daquela massa para dentro do vagão. Anos e anos enfiando na cabeça as idéias de auto-controle, para superar o ódio mortal que tenho de gente estranha se atrevendo a me tocar... Sempre odiei toques compulsórios e essa mania que gente sinestésica demais tem de tocar em você enquanto conversa... Pára, fala daí! Não precisa enfiar a mão, não precisa!!! Meses de treinamento em respiração e resignação, para suportar incólume um ato simples, como a entrada num transporte público. Onde as pessoas parecem as boiadas de "Pantanal", o diferencial é que os bois são civilizados e andam em ordem, mas as pessoas não, se sentem melhor empurrando descaradamente quem está à sua frente...

Milagrosamente, dessa vez, não existiram tantos daqueles seres preguiçosos que ficam na porta do vagão, decididos a impedir o acesso a quem está atrás (azaradamente) e quer apenas entrar na condução para a qual pagou um valor absurdo. Lógico que eles se sentem no direito de empatar, afinal, querem ir sentadinhos, como todo bom-brasileiro-que-pede-a-Deus-que-o-mundo-acabe-em-barranco-para-poder-ficar-encostado... E qual a justificativa humanista??? "Estava trabalhando, estou cansado, mereço ir sentado para casa"... Casa... aqueles confins... Lá não moram, lá se escondem, abafa! Eles estavam trabalhando, dane-se quem vai trabalhar, e dane-se os outros que também trabalharam. Ficar na porta impedindo a entrada e "atrasando a vida dos outros" (como diz a voz enojante que ecoa, inerte, para pessoas que sequer a ouvem, tão inconscientes e enfiadas em sua mediocridade estão... banalidades humanas...)...

Entrei no vagão, que até estava confortável... Pelo menos, tinha como ficar em pé, sem levar cotovelada... Mas não tinha apoio, pois sempre existe alguém que pensa que o corrimão é o namorado, ou o pole-da-boite-da-Alzira (sim, eu sou noveleiro e adorava aquele pole)... Se agarram a ele com um sofreguidão que eu só fico imaginando: deveria ter uma plaquinha, no metrô, escrito: corrimão não é pênis. Mesmo assim, as pessoas grudam nele, e dane-se se solavancam os outros... Do mesmo modo, existe uma outra tragédia urbana chamada "mochila masculina"... As mochilas são ótimas e funcionais. O problema é que elas são compradas e usadas por homens acerebrados, que sequer imaginam o quão elas se tornam inconvenientes quando nas costas de certas mulas, obstruindo o fluxo. E a voz enojante da mulher da CPTM continua falando: "mantenha sua bolsa ou mochila nas mãos para não atrapalhar os outros"... Adianta? Lógico que não. Enquanto isso, pessoas entram no vagão, mesmo vendo claramente que não havia mais espaço. Sabendo claramente que não tinham intenção nenhuma de descer na Sé, onde meio vagão desce. Egoisticamente paradas na porta, como privadas, como bidês... Alguém lembra dos bidês que nossas avós usavam? Então... aquele negócio horrível de louça, parado no banheiro, atravancando a limpeza, dando vazamentos mil... Eternamente parado ali, à espera de alguém que fosse usá-lo para... bem... todos sabem. Sempre que vejo esses seres parados como despachos na porta do vagão, me lembro dos bidês...

Finalmente, chegou a estação Sé. Que alegria!!! Aquele mundo de gente parada na porta, e o trouxa otimista aqui com a ilusão de que eles iam descer. Esqueceram de dar a descarga, e a coisa entupiu. O vagão parou, a porta abriu e as cacas não desceram. Uma coisa surreal. Não desciam e não deixaram ninguém descer... Muita gente se revoltou, houve um empurra-empurra que foi inútil. Eram muitos. Perdi a pouca paciência que Lúcifer me deu (isso é uma outra história que um dia eu conto aqui...) e gritei:

- Sai!!! Em nome de Jesus!!!

Como os crentes gritam para os capetas deixarem os corpos que (supostamente) não lhes pertencem... Sabe aquela entonação bem característica? Sssssssai! (pausa) Em nome di-Jesus!!!! Uma coisa bem assim. Repeti, berrando de novo. Algumas pessoas gargalharam. E o mais surpreendente: ninguém saiu do lugar. O que me levou a crer que: nem o nome de Jesus serve para alguma coisa no rush do transporte público de São Paulo. As pessoas não respeitam nem o nome de Jesus, e isso significa que: se Ele mesmo resolvesse dar as caras aqui em São Paulo num horário desses e pegasse uma condução como essa, seria feito de sardinha e passaria os mesmos apuros, pois de nada adiantaria ser quem é frente à uma multidão ensandecida e alienada... Alienada na vida cotidiana, na realização de coisas simples, como voltar para casa depois de um dia de trabalho... Ou seja: desde a época dele, pouquíssima coisa mudou. Depois de sair do metrô, na porta do qual, do lado de fora, uma múmia com um colete verde-limão fazia a "egípcia", fazia a "surda" enquanto eu e mais um monte de gente fazíamos a "louca", sem sequer tentar auxiliar naquele momento infeliz, eu concluí: se as almas perversas vão mesmo para o inferno, com certeza, elas vão de metrô, cheio, em hora de pico e com direito a muita gente estacionada na porta...

Coisas de São Paulo... (risos)

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2 comentários:

  1. Muito Bom! gostei mesmo do seu relato do dia 1 de fevereiro rsrsrsrsrs. Uma cronica revoltada mas muito bem humorada. Perfeito!!! rsrsrsrsrs
    beijos pra ti amor!

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  2. vou ler essa crônica da vida real em casa.

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